O pulsar de um século e meio de saberes compartilhados
A história das sociedades costuma ser escrita nas páginas dos livros, mas é no abrigo das bibliotecas que essa memória ganha corpo e fôlego. A Biblioteca Pública Arthur Vianna, coração pulsante da Fundação Cultural do Pará, concluiu nesta quarta-feira um ciclo ritualístico de celebração por seus 155 anos de existência. Longe de ser apenas um depósito de papéis amarelados, o evento realizado no Cine Líbero Luxardo provou que a instituição se mantém vibrante, operando sob o tripé da diversidade, igualdade e cidadania. O encerramento das festividades não foi apenas um protocolo institucional, mas um manifesto sobre a importância da preservação dos espaços públicos de convivência intelectual em um mundo cada vez mais digital e efêmero.
A trajetória da biblioteca se confunde com a própria urbanidade de Belém e a formação da identidade paraense. Ao completar mais de um século e meio, a instituição demonstra uma capacidade rara de se reinventar, dialogando com novos públicos sem perder a essência de sua fundação. A manhã foi preenchida por uma narrativa que percorreu décadas de serviços prestados, evidenciando que, por trás de cada estante, existem vidas dedicadas à mediação entre o livro e o leitor.
Reconhecimento e a força do capital humano
Nenhuma instituição sobrevive ao tempo sem a dedicação daqueles que zelam por seus corredores diariamente. Um dos momentos mais tocantes da programação foi a entrega de certificados de honra aos servidores que dedicam suas carreiras à guarda desse patrimônio. O destaque recaiu sobre Socorro Baia, cuja trajetória na Fundação Cultural do Pará já soma quarenta anos. Sua apresentação sobre a memória da biblioteca não foi apenas uma exposição de dados estatísticos ou cronologias frias; foi um relato afetivo de quem viu a casa crescer e se adaptar às transformações sociais.
O reconhecimento público desses profissionais reforça que a biblioteca é feita de gente para gente. A presença de acadêmicos e profissionais de outras instituições, como bibliotecários da Universidade Federal do Pará, ressaltou o sentimento de rede e colaboração que sustenta o ecossistema cultural do estado. Em um cenário onde o desmonte de aparelhos culturais é uma ameaça global, a resistência e o vigor da equipe da Arthur Vianna surgem como um farol de esperança, provando que o serviço público de qualidade é o melhor guardião da memória coletiva.

A arte como tradução do sentimento literário
A celebração dos 155 anos transcendeu o discurso falado para encontrar eco nas notas musicais e na performance artística. O palco do cinema tornou-se território de um sarau literário que uniu gerações, contando inclusive com a participação do grupo Griot, formado por estudantes da Universidade do Estado do Pará. A contação de histórias, prática ancestral que fundamenta o gosto pela leitura, trouxe ludicidade ao evento, conectando a rigidez do acervo histórico à fluidez da tradição oral.
A trilha sonora dessa comemoração ficou sob a responsabilidade de nomes proeminentes da cena paraense. Olivar Barreto e Renato Torres ofereceram ao público interpretações que dialogam com a alma amazônica, enquanto o encerramento contemporâneo com o DJ Megusta simbolizou a abertura da biblioteca para as novas linguagens urbanas. Essa mistura de ritmos e estilos sintetiza o que a Arthur Vianna se propõe a ser no século vinte e um: um espaço de confluência onde a erudição dos clássicos aperta a mão da vibração das periferias e da música popular.

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O legado social e o convite à democratização
Para além do brilho da festa, o aniversário da instituição deixou marcas práticas de incentivo à leitura. Durante todo o mês, a política de isenção de multas permitiu que muitos leitores retomassem seu vínculo com o acervo circulante, removendo barreiras burocráticas que muitas vezes afastam o cidadão da biblioteca. Essa ação educativa demonstra que a prioridade da gestão é a circulação do conhecimento e a reconciliação com o usuário. A homenagem à escritora Eliana Barriga no Teatro Margarida Schivasappa, voltada ao público infantil, também sinaliza o esforço em plantar a semente da curiosidade nas novas gerações.
A existência de um espaço como a Biblioteca Arthur Vianna é um ato de soberania cultural. Como destacado por frequentadores e especialistas durante o evento, preservar este patrimônio é garantir que todos os públicos tenham um lugar gratuito para a pesquisa, o lazer e a emancipação crítica. Ao apagar as velas de seus 155 anos, a biblioteca não apenas olha para o passado com orgulho, mas projeta um futuro onde a inovação dos serviços e a humanização do atendimento continuem sendo suas maiores marcas registradas.


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