A Psicanálise e a sinfonia dos sentidos no coração da Amazônia
A abertura do XV Encontro Nacional e do XV Colóquio Internacional do Corpo Freudiano em Belém não se limita a um protocolo acadêmico. No dia 5 de março de 2026, o palco do Theatro da Paz se converte em um laboratório de subjetividades onde a música erudita e a ancestralidade da floresta se fundem. O espetáculo Ancestral – Sons da Floresta propõe uma imersão que desafia a distância entre o espectador e a obra, utilizando a arte como ferramenta de escuta para aquilo que é primitivo e essencial. A proposta central é uma travessia simbólica, um mergulho nas camadas de tempo que compõem a identidade amazônica e, por extensão, a psique humana. Sob a curadoria de Luciana Medeiros, a montagem articula o rigor da tradição pianística com o experimentalismo das sonoridades orgânicas, criando um ambiente onde o som não é apenas ouvido, mas sentido como uma extensão do próprio corpo. Essa experiência estética serve de prelúdio para as discussões teóricas que se seguirão, sugerindo que a compreensão do humano passa, inevitavelmente, pela percepção sensorial do mundo que o cerca.
A jornada começa com o Duo Azulay, composto por Adriana e Humberto Azulay, que resgatam o legado de compositores que souberam traduzir o espírito da região em partituras universais. Ao interpretar peças de Altino Pimenta, Carlos Gomes e Waldemar Henrique, os pianistas estabelecem uma fundação sólida, uma espécie de memória afetiva musical que ancora o público antes da incursão em territórios mais experimentais. Essa primeira parte da noite funciona como um portal, conectando a sofisticação da técnica europeia aclimatada aos trópicos com a urgência da floresta viva que bate à porta do teatro. É uma celebração da história cultural do Pará, servindo de base para a expansão estética que define o restante da performance, onde o clássico cede espaço para a vibração crua dos elementos naturais e das novas mídias.
O Eco da terra e a metamorfose do som
Conforme as luzes se transformam, o espetáculo abandona a linearidade melódica para explorar a densidade do bioma. As projeções audiovisuais de Nando Lima criam uma cenografia viva, que dialoga com a pesquisa sonora de Albery Albuquerque. O músico e pesquisador dedica sua carreira a traduzir o silêncio e o ruído da Amazônia, capturando o canto das aves e o murmúrio dos animais para transformá-los em matéria composicional. O resultado é uma linguagem musical que não tenta imitar a natureza, mas sim tornar-se parte dela. A floresta deixa de ser um cenário externo para se tornar o agente principal da narrativa sonora, evocando um tempo mítico que precede a organização urbana. A presença de Márcio Jardim, percussionista do Trio Manari, intensifica essa conexão telúrica. Apresentando temas de seu álbum Amazônia Ímpar, ele utiliza o tambor como um instrumento de comunicação ancestral, cujas batidas ecoam o pulsar da própria terra e guiam o ouvinte por uma trilha de descobertas sensoriais.

A percussão de Jardim não busca o virtuosismo vazio, mas a ressonância emocional que conecta o indivíduo às suas raízes mais profundas. Cada batida funciona como um ponto de ancoragem para o inconsciente, permitindo que o público se desligue da racionalidade cotidiana e mergulhe em um estado de percepção expandida. Esse diálogo entre a tecnologia visual e o ritmo arcaico dos tambores cria um contraste que reflete as tensões do mundo contemporâneo, onde o progresso técnico e o clamor da natureza buscam um ponto de equilíbrio. A música, neste contexto, atua como um fio condutor que une o passado geológico e cultural da região às urgências do presente, preparando o terreno para que o movimento físico complete a tradução dessa experiência.

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A escrita do corpo em território compartilhado
Se o som e a imagem constroem o ambiente, é o corpo que dá vida ao conflito e à harmonia da cena. Sob a direção de Danilo Bracchi e Waldete Brito, o Grupo Coreográfico Docente da Universidade Federal do Pará, vinculado à Escola de Teatro e Dança, assume a tarefa de transformar vibração em movimento. Os oito integrantes do grupo utilizam a dança contemporânea para interpretar as nuances das obras instrumentais, transformando o palco em um campo de experimentação onde o gesto é a palavra final. O movimento não é meramente decorativo; ele é uma ferramenta de pesquisa que investiga como a ancestralidade se manifesta nos músculos e nos ossos. Cada movimento coreografado busca responder ao chamado das trilhas sonoras, criando uma dramaturgia física que narra a complexa relação entre o homem e seu habitat.
Esta integração entre ensino, pesquisa e criação artística demonstra o papel fundamental da universidade na construção da cena cultural paraense. A performance do grupo docente não apenas ilustra o espetáculo, mas o questiona e o expande, trazendo para o Theatro da Paz a inquietude intelectual e a precisão técnica desenvolvidas no ambiente acadêmico. Ao dançar a floresta, esses artistas dão forma às angústias e aos desejos que a psicanálise se propõe a investigar, servindo de ponte entre a abstração sonora e a concretude da existência humana. A dança torna-se, assim, uma escrita efêmera que registra na memória do espectador a força de uma identidade que se recusa a ser silenciada através dos séculos.
Da estética ao divã: O habitar contemporâneo
O encerramento da parte artística marca apenas o início de uma nova fase de reflexão. O espetáculo funciona como um disparador para as conferências que abrem oficialmente os debates teóricos do evento. O professor João de Jesus Paes Loureiro, figura central da intelectualidade regional, apresenta o Desfolhamento do Trágico, uma análise profunda sobre o imaginário e a linguagem na cultura amazônica. Sua fala busca desvendar como as narrativas locais se entrelaçam com a realidade para formar uma identidade estética única. Logo após, o psicanalista francês Frédéric Vinot, da Université Côte d’Azur, traz uma perspectiva global com a conferência Antropoceno e Metamorfose do Real. Vinot explora a clínica psicanalítica da habitação terrestre, discutindo como as mudanças climáticas e a destruição ambiental impactam a subjetividade moderna e a nossa forma de estar no mundo.
A presença de figuras como Betty Milan, que traz consigo a herança direta do trabalho com Jacques Lacan em Paris, e de Marco Antonio Coutinho Jorge, um dos pilares do movimento lacaniano no Brasil, consolida Belém como um ponto nevrálgico do pensamento contemporâneo. O evento, organizado pela Holofote Produções Artísticas, atrai especialistas do Canadá, Estados Unidos e França, transformando a capital paraense em um centro de intercâmbio intelectual. Ao unir a performance artística à profundidade acadêmica, o XV Encontro Nacional do Corpo Freudiano propõe que a psicanálise não deve ficar restrita aos consultórios, mas sim sair ao encontro da vida, da arte e da floresta, reconhecendo que a cura e o entendimento passam pela reconexão com o ancestral que habita em cada um de nós. Os interessados podem garantir acesso às atividades presenciais ou remotas através da plataforma Ticket Fácil ou pelo site oficial do evento.


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