
Lesões cicatrizadas indicam que a vítima sobreviveu por anos após o castigo aplicado durante a transição entre duas dinastias chinesas.
Neste artigo
Uma mulher enterrada de bruços, com apenas um grampo de cabelo de cobre junto ao corpo, pode representar o primeiro registro arqueológico conhecido de uma amputação do nariz usada como punição. O crânio foi encontrado no cemitério de Sanzhiyuan, na província de Henan, no leste da China, e pertenceu a uma pessoa que viveu há cerca de 700 anos.
A identificação só ocorreu anos depois da escavação. Os restos estavam entre aproximadamente 300 esqueletos retirados do local em 2019, durante trabalhos de salvamento realizados antes de uma construção. A alteração no rosto passou despercebida até 2024, quando Yawei Zhou, arqueólogo da Universidade de Zhengzhou, revisou os materiais.
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A descoberta foi analisada em um estudo divulgado em 2026 e repercutido pela Live Science. Segundo a pesquisa, a deformação craniana é compatível com a remoção parcial dos ossos nasais, mas os autores ainda consideram outras explicações possíveis.
Uma lesão que deixou marcas de sobrevivência
O principal indício está na abertura nasal do crânio. A estrutura, normalmente descrita pelos anatomistas como uma abertura em formato de pera, aparece ampliada porque os dois ossos do nariz foram parcialmente retirados. Cerca de metade da ponte nasal, porém, permaneceu preservada.
Os pesquisadores também encontraram fraturas cicatrizadas em vários ossos localizados no interior do nariz. Esse processo de reparação é importante porque indica que o ferimento não provocou morte imediata. Na avaliação da equipe, a mulher continuou viva por vários anos depois da intervenção.
O esqueleto foi atribuído a uma mulher de meia-idade. A datação por radiocarbono apontou que ela viveu entre 1298 e 1404, período que abrange os últimos anos da dinastia Yuan e o início da dinastia Ming. A faixa temporal impede uma identificação histórica individual, mas ajuda a situar a prática no contexto jurídico e social de uma China imperial em transformação.
Por que os arqueólogos suspeitam de punição
Uma doença, uma alteração congênita ou outro tipo de trauma não foram completamente descartados. Ainda assim, o conjunto de evidências levou os autores a considerar a amputação punitiva a hipótese mais provável. O posicionamento do corpo também entrou nessa interpretação: a mulher foi colocada de bruços, na extremidade sul do cemitério, dentro de um caixão de madeira.
O enterro isolado e a ausência quase total de objetos funerários não provam, sozinhos, que houve uma condenação. Eles funcionam como elementos de contexto, especialmente quando analisados junto com a lesão e com os sinais de cicatrização. A bioarqueologia trabalha justamente com essa combinação entre ossos, sepultamento, ambiente e registros históricos.
O antropólogo biológico Qian Wang, um dos autores do estudo, levantou a possibilidade de que a mulher tenha sido punida por roubo de animais ou adultério. Essas causas são hipóteses, não uma conclusão sobre a identidade ou a conduta da vítima. A pesquisa não encontrou um documento que registre o julgamento ou o crime atribuído a ela.
O nariz entre as cinco punições
Na China de períodos dinásticos antigos, a amputação do nariz fazia parte de um conjunto conhecido como as cinco punições. A lista também incluía tatuagem, amputação dos pés, castração e pena de morte. A severidade variava conforme o período, a posição social do condenado e a natureza da infração.
Registros sobre esse tipo de castigo aparecem associados a inscrições em ossos oraculares da dinastia Shang, muito anterior à mulher de Sanzhiyuan. A existência de referências escritas, no entanto, não significa que todos os casos tenham deixado vestígios no esqueleto. Tecidos do rosto desaparecem, e alterações ósseas podem ser confundidas com doença ou acidente.
É por isso que o achado de Henan ganha relevância. Segundo a Live Science, o crânio encontrado em Sanzhiyuan, na China, apresenta ossos nasais parcialmente removidos e sinais de cicatrização identificados em 2024, em um estudo divulgado em 2026. A combinação oferece uma evidência material rara para uma prática conhecida principalmente por textos e inscrições.
O que o caso mostra para a arqueologia
A análise também ilustra como uma escavação pode produzir respostas muito tempo depois da retirada dos restos humanos. No trabalho de campo de 2019, a alteração não foi reconhecida. A revisão feita cinco anos depois mostrou que novas perguntas e técnicas de observação podem modificar a leitura de um conjunto arqueológico já catalogado.
Para o leitor do Pará e da Grande Belém, o caso ajuda a explicar por que cemitérios antigos não são apenas locais de sepultamento. Ossos podem revelar alimentação, doenças, violência, mobilidade e formas de punição, desde que sejam examinados junto com o local onde foram encontrados. Em áreas de obras e escavações arqueológicas, a documentação do contexto é tão importante quanto o objeto ou o esqueleto.
O estudo não afirma que esse seja definitivamente o primeiro caso de amputação nasal punitiva em toda a arqueologia. A conclusão é mais cautelosa: trata-se do provável exemplo mais antigo identificado até agora, com evidências que sustentam a hipótese, mas sem eliminar completamente causas médicas ou congênitas.
As próximas análises de restos humanos do mesmo cemitério podem ajudar a verificar se a lesão foi um evento isolado ou parte de um padrão mais amplo na comunidade. A interpretação também dependerá da comparação com outros sítios chineses do período Yuan e do início da dinastia Ming.
Com informações de Live Science.
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