No coração da Amazônia, pequenos seres alados desempenham um papel essencial para a vida humana e para a floresta. As abelhas, apesar do tamanho diminuto, carregam sobre si a responsabilidade de manter o equilíbrio ambiental, a produção de alimentos e até a geração de renda em escala global. No Pará, sua relevância vai além do mel: elas são símbolo de biodiversidade, inovação econômica e sustentabilidade.

De acordo com a Secretaria de Desenvolvimento Agropecuário e da Pesca (Sedap), a meliponicultura (criação de abelhas sem ferrão) e a apicultura (abelhas com ferrão) vêm sendo incentivadas em todo o estado. Apenas em 2024, a produção local ultrapassou 746 toneladas, resultando em uma receita de R$ 16,24 milhões, segundo dados da Agência de Defesa Agropecuária do Pará (Adepará). Essa força produtiva faz parte de um cenário nacional ainda maior: o Brasil alcança, em média, 50 mil toneladas de mel por ano, consolidando-se como referência mundial.
Embora sejam inevitavelmente associadas ao mel, as abelhas oferecem muito mais. De sua atividade surgem própolis, geleia real e pólen, matérias-primas que alimentam indústrias variadas, desde a farmacêutica até a cosmética, com produtos que vão de sabonetes a pastas de dente. No Pará, a diversidade é ainda mais rica: as abelhas sem ferrão, como a uruçu-amarela, a canudo e a olho-de-vidro, são protagonistas na polinização de espécies fundamentais, como o açaizeiro.
O Estado tem buscado estruturar esse setor com base em políticas públicas. A Sedap está concluindo o Programa Estadual de Desenvolvimento Sustentável da Cadeia Produtiva das Abelhas no Pará (PróAbelhas) e regulamentando a Lei nº 7.055/2007, que institui a Política Estadual para o Desenvolvimento e Expansão da Apicultura. O acompanhamento do manejo é realizado pela Coordenadoria de Produção Animal (Copan), que dá suporte aos criadores e fortalece a rede produtiva.
Outro avanço marcante foi o reconhecimento da Indicação Geográfica (IG) do mel produzido em São João de Pirabas e municípios vizinhos, como Santarém Novo, Salinópolis, Quatipuru e Primavera. O selo, concedido pelo Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI), garante origem e qualidade diferenciada, além de ampliar o valor de mercado para os produtores locais.

SAIBA MAIS:
Para além dos números e legislações, a vida dos criadores mostra o impacto transformador das abelhas. Em Ananindeua, a apenas 23 quilômetros de Belém, o produtor Rubens Franco mantém uma propriedade modelo dedicada à meliponicultura periurbana. Ex-advogado, ele trocou os tribunais pelo cuidado com as colmeias em 2011. Hoje, administra 40 caixas de abelhas de diferentes espécies, equilibrando produção, polinização e paixão.
Rubens define-se como “assistente da natureza” e afirma que a maior recompensa não está apenas no mel, mas no sinal de que o ambiente ao redor está saudável. Ele cultiva frutas como cupuaçu, cacau, maracujá e açaí, que dependem diretamente das abelhas para florescer. Para ele, cada colmeia aberta traz um aprendizado, e cada colheita confirma o ciclo de equilíbrio entre homem e floresta.
A experiência também mostra que o manejo exige técnica. O posicionamento das caixas, a distância entre elas e a diversidade de espécies são fatores decisivos para evitar competição excessiva e garantir produtividade. Em sua propriedade, até a minúscula “abelha mosquito”, de apenas 4 milímetros, encontra espaço e importância, demonstrando que não é apenas a abelha com ferrão que sustenta a biodiversidade.
Do ponto de vista institucional, a Adepará coordena o Programa Estadual de Saúde das Abelhas (Pesab), responsável por manter as colmeias livres de pragas e doenças. Ações de diagnóstico, monitoramento e educação sanitária são fundamentais para assegurar a qualidade do mel e de outros derivados, além de fortalecer a polinização natural. O cadastro oficial dos criadores, obrigatório pelo Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa), vem sendo organizado para ampliar acesso a mercados e certificações.
Por trás das cifras e regulamentações, está um legado que vai além da economia. As abelhas representam uma lição de organização e sustentabilidade. Cada colônia vive em uma hierarquia rígida, com rainha, zangões e operárias, mas também mostra eficiência na reutilização de recursos, como a cera e o cerume. Estruturas resistentes e antimicrobianas são erguidas sem desperdício, em um exemplo natural de economia circular.
No Pará, celebrar o Dia Nacional das Abelhas é reconhecer que sua presença mantém viva a floresta, sustenta a produção agrícola e garante renda a famílias. São seres pequenos que carregam a força de um bioma inteiro, lembrando que proteger as abelhas é também proteger o futuro da Amazônia.


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