Jacaré-açu vira renda no rio, mas só com cota e abate licenciado

Jacaré-açu vira renda no rio, mas só com cota e abate licenciado
Whaldener Endo, Wikimedia Commons, licença CC BY-SA 4.0, jacaré-açu (Melanosuchus niger) na Reserva de Desenvolvimento Sustentável Uacari, Amazonas, 11/07/2009

O manejo sustentável do jacaré-açu (Melanosuchus niger) permite que comunidades ribeirinhas da Amazônia retirem da natureza uma fração controlada dos animais, vendam carne e couro e, em troca, protejam ninhos e lagos. Na Reserva Mamirauá, no Amazonas, a cota nunca passa de 15% dos jacarés contados. Na Reserva Extrativista Lago do Cuniã, em Rondônia, o modelo já funciona como cadeia produtiva.

Neste artigo
  1. Do couro ilegal à cota legal
  2. Como a cota é calculada
  3. O abate sobre a água
  4. Entenda
  5. Quanto rende
  6. O exemplo de Rondônia
  7. Limites do modelo
  8. O que vem a seguir

Entre as décadas de 1950 e 1970, a caça para o mercado ilegal de couro colocou o jacaré-açu sob risco de extinção na região do Médio Solimões, no Amazonas, segundo o Instituto Mamirauá. A atividade foi proibida em 1967. A criação de unidades de conservação ajudou a espécie, o maior jacaré das Américas, a se recuperar.

A proibição, porém, não acabou com a caça de carne. Pesquisadores do Centro de Estudos Superiores de Tefé, da Universidade do Estado do Amazonas, acompanharam em novembro de 2014 duas comunidades do rio Copeá, em Maraã. Em 12 caçadas, os moradores capturaram 35 jacarés-açu e 6 jacarés-tinga. A carne seguia salgada e seca, a R$ 2,50 o quilo, para o mercado do Pará.

Os caçadores explicaram aos autores que caçam porque, depois da safra do pirarucu, essa é a única renda que resta. O manejo tenta ocupar esse espaço com uma atividade regulada, que depende de manter o jacaré vivo e abundante.

Como a cota é calculada

O Instituto Mamirauá, unidade de pesquisa ligada ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação, assessora o manejo na Reserva Mamirauá desde 2000. Existem três formas de manejo: intensivo, com criação em cativeiro; semi-intensivo, com ovos ou filhotes coletados e criados em cativeiro; e extensivo, em que o animal é retirado direto da natureza. O extensivo só pode ser feito por comunidades tradicionais de reservas de desenvolvimento sustentável, reservas extrativistas e florestas nacionais.

Todo ano, as equipes monitoram os ninhos e contam os jacarés nas áreas de manejo. A cota é definida a partir dessa contagem e não pode superar 15% do total de animais contados. Onde há ninhos, não há captura. Os ninhos são visitados durante a seca, o que também permite estimar quantas fêmeas se reproduzem. Em 2020, o instituto informou que ribeirinhos foram treinados para participar da contagem.

Com os números, o instituto e a associação dos manejadores montam o plano de manejo, com a cota anual proposta e os dados da estrutura de abate. O Ibama avalia o documento e autoriza ou não a captura. O superintendente do órgão no Amazonas, Joel Araújo, afirmou em julho de 2024 que a autorização é proporcional à contagem de indivíduos na natureza.

O abate sobre a água

A carne só chega ao consumidor se o animal for abatido em estabelecimento licenciado. Em Mamirauá, esse papel cabe à Planta de Abate Remoto, a Plantar, uma estrutura flutuante de metal com 112 metros quadrados, na comunidade São Raimundo do Jarauá, em Uarini.

No abate experimental de 4 a 6 de março de 2020, cada jacaré foi medido, pesado e sexado. Um veterinário da Agência de Defesa Agropecuária e Florestal do Amazonas examinou o animal vivo. Depois vieram a lavagem, a insensibilização com pistola pneumática, a sangria, a retirada do couro e a evisceração. A carne foi embalada e levada em barco frigorífico até Tefé.

Entenda

O jacaré-açu é a maior espécie de jacaré das Américas. No manejo extensivo, a comunidade retira animais da natureza dentro de uma cota calculada, em época e tamanho definidos. O plano precisa de autorização do Ibama.

Quanto rende

Em 7 de março de 2020, a primeira Feira do Jacaré Manejado, em Tefé, vendeu carne de 28 animais, quase 600 quilos, a preços de R$ 6 a R$ 15 o quilo, conforme o corte. O pescador Jorge Souza Carvalho, morador do Jarauá, disse na época: “O manejo do jacaré é uma grande alegria porque a gente vai ter mais uma renda.”

Em 21 de novembro de 2025, o Governo do Amazonas entregou a dispensa de licenciamento ambiental da estrutura flutuante. No setor Jarauá, a cota máxima é de 500 jacarés por ano, com potencial de gerar de R$ 230 mil a R$ 240 mil anuais para cerca de 40 famílias, informou o governo. O instituto assessora ainda o setor Aranapu, e seis comunidades participam do trabalho.

O exemplo de Rondônia

Na Resex Lago do Cuniã, o manejo registrou em 2016 o abate de 730 jacarés entre 11 de outubro e 28 de novembro, com 3.227 quilos de carne e receita bruta de R$ 175.192. Os números vêm de relatório do ICMBio citado em estudo apresentado no EcoInovar. Só machos de 1,60 metro a 2,80 metros podem ser abatidos, e o abate começa após agosto para não coincidir com a reprodução.

Em novembro de 2025, a CoopCuniã vendia o couro inteiro a R$ 1.600 e produzia linguiça e kibe com a carne. Em agosto de 2026, o Sebrae em Rondônia informou que o frigorífico da cooperativa recebeu Licença de Operação do Ibama e que estrutura uma Indicação Geográfica para a carne.

Limites do modelo

O próprio Instituto Mamirauá trata o manejo de jacarés como uma alternativa que “pode se tornar” viável, e não como renda garantida. Abates experimentais autorizados pelo Ibama ocorreram em 2004, 2006, 2008 e 2010. Só em 2020 houve um abate com plano de manejo e abatedouro licenciado, e o instituto relata entraves burocráticos que atrasaram o projeto por anos.

A renda também é sazonal. O estudo sobre o Cuniã, com dados de junho a setembro de 2020, concluiu que o manejo sozinho não sustenta as famílias, porque a atividade dura cerca de três meses e elas seguem na pesca, no pirarucu e na agricultura.

Há ainda o risco de a regra falhar na prática. O coordenador do Programa de Manejo da Fauna do instituto, Diogo de Lima Franco, afirmou que “pequenas falhas ou dificuldades de interpretação de normas, leis ou dados coletados podem gerar gargalos sérios no desenvolvimento da atividade”. Ele afirma esperar que o manejo reduza também a oferta e a demanda do produto ilegal.

O que vem a seguir

Em 25 de novembro de 2025, o Instituto Mamirauá informou que o novo plano de manejo aguardava a autorização final do Ibama, com início das atividades previsto para 2026. Se o plano for aprovado, o Jarauá terá um novo ciclo de manejo. No Cuniã, o Sebrae trabalha pelo reconhecimento da origem da carne.

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