Dor crônica atinge mais mulheres, e revisão na Science mostra como hormônios ampliam a sensibilidade

Dor crônica atinge mais mulheres, e revisão na Science mostra como hormônios ampliam a sensibilidade
Foto: Science Media Centre 2021

Análise reúne evidências sobre hormônios, sistema imunológico e microbiota, mas alerta que tratamentos ainda não acompanham a ciência.

Neste artigo
  1. O que muda quando a dor deixa de ser vista como exagero
  2. Como os hormônios podem aumentar a sensibilidade
  3. O intestino e as células de defesa entram na equação
  4. Por que o tratamento ainda não acompanha a descoberta
  5. O que isso representa para mulheres no Pará
  6. O que a ciência já sabe e o que ainda falta descobrir

A dor que costuma ser tratada como exagero pode ter mecanismos biológicos diferentes no corpo feminino. Uma revisão publicada na revista Science em 1º de outubro de 2026 reuniu estudos sobre dor visceral e somática e mostrou como hormônios sexuais, células do sistema imunológico, microbiota intestinal e circuitos naturais de analgesia podem contribuir para que mulheres sintam dores mais intensas e persistentes do que homens.

A análise aborda especialmente mulheres mais jovens, grupo desproporcionalmente afetado por síndrome do intestino irritável, endometriose, enxaqueca menstrual, fibromialgia, osteoartrite e dores neuropáticas. O trabalho foi assinado por Archana Venkataraman e outros autores, e faz parte de uma edição especial da Science dedicada à saúde da mulher.

O que muda quando a dor deixa de ser vista como exagero

O ponto central da revisão não é afirmar que toda mulher sente dor da mesma maneira. A conclusão é mais específica: existem diferenças médias entre os sexos na forma como o organismo detecta, transmite e regula estímulos dolorosos. Essas diferenças aparecem tanto na dimensão sensorial, ligada à intensidade do sinal, quanto na dimensão emocional, que interfere na maneira como cada pessoa vive a dor.

Segundo a revista Science, a dor crônica em mulheres é influenciada por hormônios sexuais, interações entre sistema nervoso e imunidade, microbiota intestinal e mecanismos endógenos de controle da dor. Esses fatores ajudam a explicar por que determinadas doenças dolorosas são mais frequentes ou mais incapacitantes no público feminino.

O professor Carlos Goicoechea García, da Universidade Rey Juan Carlos, na Espanha, avalia que homens apresentam, em média, limiares de dor e tolerância mais altos. Isso não significa que uma regra individual possa ser aplicada a todos os pacientes. A experiência dolorosa também depende de sono, ansiedade, histórico de saúde, contexto social e expectativa sobre o sintoma.

Como os hormônios podem aumentar a sensibilidade

Uma das linhas de evidência mais fortes está relacionada ao estrogênio. De acordo com os estudos reunidos, esse hormônio pode atuar em receptores presentes em órgãos internos e aumentar a sensibilidade visceral, aquela percebida em estruturas como intestino, útero e outros órgãos da região abdominal.

O estrogênio também participa do processamento da dor em diferentes áreas do sistema nervoso. Em determinadas circunstâncias, pode favorecer a chamada sensibilização central, processo no qual o sistema nervoso passa a responder de forma exagerada a estímulos que antes seriam menos intensos. É como se o volume do sinal doloroso fosse aumentado ao longo do caminho entre o corpo e o cérebro.

Essa hipótese ajuda a compreender por que doenças como endometriose, síndrome do intestino irritável e enxaqueca menstrual podem provocar sintomas recorrentes e difíceis de controlar. A revisão, porém, não apresenta uma explicação única. Os mecanismos variam conforme a doença e ainda não estão igualmente bem estabelecidos em todas elas.

O intestino e as células de defesa entram na equação

Outro elo analisado pelos pesquisadores é a microbiota intestinal, conjunto de microrganismos que vive no aparelho digestivo. Os hormônios podem modificar a atividade dessas comunidades e estimular a produção de substâncias que influenciam a sensibilidade dolorosa.

O caminho proposto pelos estudos é indireto. Alterações hormonais podem mudar a composição ou o metabolismo da microbiota. Os produtos gerados por essas bactérias, por sua vez, podem interferir em circuitos nervosos e imunológicos associados à dor. A revisão reúne indícios desse processo, mas isso não significa que uma alteração intestinal isolada explique todos os casos de dor crônica.

O sistema imunológico também aparece como peça importante. As células de defesa que respondem a uma lesão ou inflamação não atuam exatamente da mesma forma em homens e mulheres. Ao interagir com neurônios, elas podem modificar a intensidade e a duração dos sinais dolorosos. Essa comunicação entre sistema imune e sistema nervoso é chamada de interação neuroimune.

Por que o tratamento ainda não acompanha a descoberta

Embora a pesquisa esteja detalhando os mecanismos envolvidos, essa informação ainda não se transformou em terapias personalizadas disponíveis para a maioria dos pacientes. O reumatologista Javier Rivera, do Instituto Nacional da Dor, na Espanha, afirma que os tratamentos atuais não controlam satisfatoriamente todos os quadros de dor crônica.

Um dos obstáculos está nos próprios ensaios clínicos. Muitos estudos incluem homens e mulheres, mas não analisam de forma separada a resposta de cada sexo aos medicamentos. Com isso, uma possível diferença na eficácia ou nos efeitos adversos pode ficar escondida dentro da média geral do grupo.

Para Goicoechea, o futuro exige uma abordagem que considere sexo e gênero. A primeira dimensão pode orientar escolhas farmacológicas e fisioterapêuticas. A segunda envolve fatores psicológicos e sociais, como papéis atribuídos a homens e mulheres, acesso ao cuidado, credibilidade dada aos relatos e impacto do trabalho doméstico ou profissional.

O que isso representa para mulheres no Pará

Para quem vive no Pará e na Grande Belém, a principal consequência prática é a necessidade de levar sintomas persistentes a sério, sobretudo quando eles se repetem ou interferem no trabalho, no sono, na alimentação e na vida social. A revisão não cria um exame capaz de confirmar a causa da dor, nem substitui avaliação médica, mas reforça que a queixa não deve ser descartada automaticamente como resultado de imaginação ou exagero.

O tema também chama atenção para a importância de registrar a evolução dos sintomas, sua relação com o ciclo menstrual, medicamentos utilizados e limitações provocadas no cotidiano. Essas informações podem ajudar a equipe de saúde a diferenciar padrões de dor e decidir quais investigações são necessárias. Nenhum tratamento deve ser iniciado ou interrompido apenas com base na revisão.

Mais de 20% da população geral convive com dor crônica, segundo a avaliação do especialista Javier Rivera, com prevalência particularmente alta entre mulheres. O número representa um problema de saúde e de qualidade de vida que alcança pacientes em diferentes regiões, inclusive aquelas que dependem da rede pública e enfrentam longos caminhos até o diagnóstico.

O que a ciência já sabe e o que ainda falta descobrir

A revisão reforça evidências acumuladas desde pesquisas realizadas em animais e estudos clínicos a partir de meados do século 20. Ao mesmo tempo, os autores não apresentam uma fórmula universal para explicar a dor feminina. Cada caso combina sinais físicos e componentes emocionais de maneira própria, e duas pessoas com o mesmo diagnóstico podem ter experiências muito diferentes.

As evidências sobre fibromialgia, dores de cabeça e dor crônica associada à osteoartrite ainda são mais limitadas do que as observações sobre dor visceral. Os pesquisadores levantam a hipótese de que diferenças hormonais e neuroimunes também participem desses quadros, mas essa possibilidade exige estudos específicos.

O próximo passo é transformar a distinção biológica em decisões clínicas mais precisas, com pesquisas que comparem tratamentos por sexo e considerem as particularidades de cada paciente. A edição especial da Science sobre saúde da mulher reúne outros quatro artigos, ampliando a discussão sobre como preencher lacunas históricas no conhecimento médico.

Com informações da revista Science.

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