
Jejum para exame de sangue pode ser desnecessário para a maioria dos testes de rotina, segundo um estudo publicado em 28 de setembro de 2026 na revista JAMA Internal Medicine. A equipe coreana liderada por Sunghwan Shin comparou 121 exames e encontrou diferença relevante em poucos, entre eles glicose, triglicerídeos, gama-glutamil transferase (GGT) e lipase.
Neste artigo
O resultado, porém, não muda sozinho a regra de ninguém. No Brasil, a decisão continua sendo do médico que pede o exame e do laboratório que faz a coleta, e alguns testes, como a glicemia de jejum, seguem exigindo o intervalo sem comer.
O que o estudo avaliou
O trabalho, intitulado “Fasting Duration and Differences Across Routine Laboratory Tests”, é uma análise retrospectiva de dados reais de um único centro: um hospital universitário de 670 leitos na região metropolitana de Seul, na Coreia do Sul. Os autores são ligados ao Asan Medical Center e a outras instituições coreanas.
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Foram usados 9.755.547 resultados de 101.148 adultos atendidos como pacientes ambulatoriais entre fevereiro de 2021 e dezembro de 2023. Cada paciente tinha o tempo de jejum registrado, contado da última refeição até a coleta, e foi separado em três grupos: menos de 8 horas, de 8 a 12 horas e mais de 12 horas.
O que mudou nos resultados
Dos 121 exames analisados, 27 mostraram diferença entre os grupos acima do limite de erro aceitável. Quando os pesquisadores compararam as mesmas pessoas em coletas com tempos de jejum diferentes, apenas 10 se confirmaram. Com menos de 8 horas de jejum, os valores foram maiores nestes quatro:
- glicose: 10,8% mais alta;
- triglicerídeos: 20,1% mais altos;
- GGT, enzima do fígado: 14,8% mais alta;
- lipase, enzima do pâncreas: 36,4% mais alta.
Entre quem jejuou de 8 a 12 horas e quem jejuou mais de 12 horas, nenhum exame passou do limite. Ou seja, esticar o jejum além de 12 horas não melhorou a qualidade da amostra. Os autores concluem que exigências de jejum específicas por exame podem ser mais adequadas do que uma regra única para todos.
Limites do estudo
Trata-se de um estudo observacional, de um só hospital e de uma população sul-coreana. Ele mostra associação, não prova causa, e o tempo de jejum dependia do que foi registrado na hora da coleta. Os próprios autores afirmam que são necessárias pesquisas com populações mais diversas antes de mudar padrões clínicos.
Na mesma edição da revista saiu um comentário de Liv Tybjærg Nordestgaard e colegas, com o título “Time to Stop Fasting Before Blood Sampling” (hora de parar o jejum antes da coleta de sangue), que defende a mudança. É uma opinião de especialistas, não uma diretriz.
O que vale hoje no Brasil
O jejum já foi flexibilizado no país para o perfil lipídico. O Consenso Brasileiro para a Normatização da Determinação Laboratorial do Perfil Lipídico, elaborado em 2016 pela Sociedade Brasileira de Análises Clínicas, pela Sociedade Brasileira de Diabetes, pelo Departamento de Aterosclerose da Sociedade Brasileira de Cardiologia, pela Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia e pela Sociedade Brasileira de Patologia Clínica/Medicina Laboratorial (SBPC/ML), permite dosar colesterol total, LDL, HDL, não-HDL e triglicerídeos sem jejum.
O documento traz condições. O laudo deve informar se o paciente estava em jejum. Se o médico pedir um tempo específico, o laboratório segue a orientação. Se outros exames do mesmo pedido exigirem jejum, o laboratório pode coletar o perfil lipídico em jejum de 12 horas. E, se os triglicerídeos sem jejum passarem de 440 mg/dL, o médico deve pedir nova dosagem com 12 horas de jejum. Para adultos, o valor desejável de triglicerídeos é abaixo de 150 mg/dL em jejum e abaixo de 175 mg/dL sem jejum.
A Sociedade Brasileira de Pediatria divulgou em 28 de julho de 2017 orientação no mesmo sentido, baseada no consenso. O estudo de 2026 não altera, por si só, essas orientações.
Quais exames ainda pedem jejum
As orientações variam entre serviços. A Secretaria Municipal de Saúde de Belo Horizonte, por exemplo, pede 8 horas de jejum para glicose, triglicerídeos, ferro sérico, insulina e peptídeo C, e informa que os demais exames não exigem jejum. Nesse período é permitido beber água, e os medicamentos não devem ser suspensos sem autorização médica.
O estudo reforça o motivo da cautela com a glicemia: quem jejuou menos de 8 horas teve glicose em média 10,8% mais alta, diferença que pode distorcer o diagnóstico de diabetes. Por isso, siga o preparo indicado no pedido ou pelo laboratório, mesmo que a notícia sugira o contrário.
Entenda
Jejum, nesse contexto, é o período sem comer nem beber nada além de água antes da coleta. Perfil lipídico é o conjunto de exames de gorduras no sangue: colesterol total, LDL, HDL e triglicerídeos. Analito é a substância medida pelo exame. Estudo retrospectivo analisa dados que já existiam, sem acompanhar os pacientes a partir de um experimento.
Perguntas frequentes
Posso comer antes de qualquer exame de sangue?
Nem sempre, mas só o pedido médico e o laboratório dizem quando. Siga a instrução recebida. O estudo não substitui essa orientação e não analisou todos os exames existentes.
O exame de colesterol exige jejum?
Em regra, não. O consenso brasileiro de 2016 permite a coleta sem jejum, mas o laboratório pode pedir 12 horas se outros exames do mesmo pedido exigirem, e o médico pode determinar jejum em casos específicos.
A glicemia de jejum pode ser feita sem jejum?
Não. Com menos de 8 horas de jejum, a glicose aparece mais alta, e o estudo mostrou diferença acima do limite de erro. O exame segue pedindo o intervalo indicado pelo laboratório.
Jejum de mais de 12 horas é melhor?
Não. No estudo, não houve diferença relevante em nenhum exame entre 8 a 12 horas e mais de 12 horas, e o jejum longo pode causar desconforto, principalmente em quem usa insulina, gestantes, crianças e idosos, segundo o consenso brasileiro.
O que fazer a seguir
Antes de qualquer coleta, leia a orientação de preparo do laboratório e confirme com o médico se o seu caso exige jejum. Se você tem diabetes, toma insulina ou outro remédio, não suspenda nem altere nada por conta própria. Informe ao laboratório quantas horas passou sem comer, para que o laudo seja interpretado corretamente.
Com informações da JAMA Internal Medicine, da Sociedade Brasileira de Patologia Clínica/Medicina Laboratorial, da Sociedade Brasileira de Análises Clínicas, da Sociedade Brasileira de Cardiologia, da Sociedade Brasileira de Pediatria e da Secretaria Municipal de Saúde de Belo Horizonte.
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