
Procissão no bairro do Sumaré reúne devotos e transforma saudade, fé e pertencimento em celebração coletiva
Neste artigo
A devoção a Nossa Senhora de Nazaré também encontra espaço a milhares de quilômetros de Belém. Em São Paulo, paraenses e outros devotos se reúnem no segundo domingo de outubro para uma procissão que acompanha simbolicamente o calendário do Círio de Nazaré e mantém viva uma tradição marcada por fé, memória e identidade.
A caminhada tem concentração nas proximidades da estação Sumaré do metrô, com saída pela manhã em direção ao Santuário Nossa Senhora de Fátima. O percurso reúne pessoas que vivem na capital paulista, mas preservam vínculos afetivos e religiosos com o Pará.
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Entre elas está Maria Anunciação Araújo da Rosa, natural de Tracuateua. Morando em São Paulo há cerca de dez anos, ela encontrou na procissão uma forma de se reconectar com as tradições que fizeram parte de sua vida desde o interior paraense.
Um encontro inesperado com a tradição
Maria Anunciação descobriu a existência da romaria por meio de um casal de amigos paraenses que também vive em São Paulo. Apaixonada por procissões, até então desconhecia uma celebração dedicada a Nossa Senhora de Nazaré tão próxima de sua residência.
Naquele período, ela havia participado recentemente do Círio de Tracuateua, realizado tradicionalmente no terceiro domingo de agosto. Da cidade natal, trouxe uma camiseta usada durante a festividade e decidiu vestir a mesma peça para acompanhar a procissão paulista ao lado do marido, Antônio.
O que seria apenas uma experiência de reencontro com a devoção ganhou outro significado logo na chegada ao ponto de concentração.
Ao perceber a presença do grupo, um dos organizadores, conhecido como senhor Sebastião, perguntou se eles eram paraenses. A identificação com o Pará abriu espaço para uma recepção calorosa e para um convite inesperado.
A bandeira do Pará na comissão de frente
Maria Anunciação foi convidada a carregar a bandeira do Pará à frente da procissão. A comissão foi formada também pelos pavilhões do Brasil e do estado de São Paulo, criando uma representação simbólica entre identidade nacional, território de acolhida e origem paraense.
Para a devota de Tracuateua, assumir o estandarte foi um momento de forte emoção. O gesto significava mais do que participar da caminhada. Era uma forma pública de representar suas raízes em uma cidade onde reconstruiu parte da vida longe da Amazônia.
A experiência também fortaleceu a relação com os organizadores. Ao longo do ano seguinte, Maria Anunciação manteve contato com o senhor Sebastião e aguardou com expectativa uma nova oportunidade de participar da romaria.
Quando outubro chegou novamente, ela retornou ao Sumaré e percebeu um aumento na presença de fiéis. A estimativa feita por participantes apontava para centenas de pessoas reunidas durante a caminhada, demonstrando o crescimento da celebração.
Fé que também constrói pertencimento
Na segunda participação, Maria Anunciação voltou a receber o convite para conduzir a bandeira do Pará. A resposta foi imediata. Carregar novamente o estandarte se transformou em uma forma de reafirmar sua devoção e o orgulho por sua origem.
Ao longo do percurso, o sentimento predominante foi de gratidão. Para ela, segurar a bandeira representava também a trajetória de uma mulher paraense que construiu uma nova vida em São Paulo sem romper os vínculos com sua história.
A experiência mostra como manifestações religiosas ajudam comunidades migrantes a preservar referências culturais e afetivas. Em uma cidade marcada por diferentes origens, o Círio realizado no Sumaré funciona como ponto de encontro para quem deseja manter viva uma relação com o Pará.
A procissão reúne fé, memória e saudade em um mesmo caminho. Para muitos participantes, acompanhar Nossa Senhora de Nazaré pelas ruas de São Paulo significa diminuir simbolicamente a distância de Belém, de Tracuateua e de outros municípios paraenses.
Mais do que reproduzir uma tradição fora de seu território de origem, a celebração cria novos sentidos para a devoção. A cada edição, o percurso entre o Sumaré e o Santuário Nossa Senhora de Fátima fortalece vínculos entre pessoas que compartilham lembranças, histórias e uma identidade construída em torno da fé.
Para Maria Anunciação, levar a bandeira do Pará à frente da romaria resume esse sentimento. Em meio à metrópole paulista, a estrela solitária do estandarte paraense segue como símbolo de pertencimento e como lembrança de que a cultura amazônica continua viva mesmo quando seus filhos constroem caminhos longe de casa.
Fotos: Divulgação
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