No coração da Avenida Comandante Brás de Aguiar, um dos endereços mais emblemáticos da capital paraense, o silêncio costuma ser interrompido pelo movimento frenético do comércio e da moda. No entanto, desde a noite desta segunda-feira, 16 de março de 2026, o som que ecoa da Casa SESI Indústria Criativa é outro. Trata-se do grito de resistência e da celebração da força produtiva de mulheres que movem a Amazônia de ponta a ponta.
O Sistema Federação das Indústrias do Estado do Pará (FIEPA) inaugurou oficialmente duas mostras que, embora distintas em suas linguagens visuais, convergem para um objetivo comum. As exposições intituladas Todas e Todos por Elas: Vozes por Geordana e Mãos de Mulher propõem uma imersão profunda nas dores e nas glórias do feminino no Brasil contemporâneo.
A abertura do evento reuniu autoridades do Judiciário, líderes industriais e coletivos de artistas, marcando um posicionamento claro da indústria paraense. O desenvolvimento econômico não pode mais ser dissociado da justiça social e da segurança das mulheres. Ao abrir as portas para o público de forma gratuita, o SESI Pará reafirma sua função como agente transformador da cidadania através da cultura.
Vozes por Geordana e o combate urgente ao feminicídio no Pará
A violência de gênero é uma ferida aberta que o estado do Pará busca estancar com políticas públicas e conscientização severa. A mostra Todas e Todos por Elas: Vozes por Geordana utiliza a arte como ferramenta de denúncia e ressignificação de uma tragédia que chocou a sociedade em 2021. Geordana, uma jovem modelo negra com uma carreira promissora, teve sua vida interrompida precocemente, tornando-se o rosto de uma luta que não pode parar.
A exposição foi desenvolvida em uma parceria estratégica com o Tribunal Regional Eleitoral do Pará (TRE-PA). O diretor geral do tribunal, Bruno George Almeida, trouxe um relato pessoal e comovente durante a inauguração, destacando que a itinerância desta mostra é fundamental para que mais famílias identifiquem os sinais precoces da violência doméstica. O conceito central da exibição é fazer com que o silenciamento forçado da vítima se transforme em um eco coletivo por justiça e prevenção.
Especialistas em segurança pública apontam que o feminicídio é o ápice de um ciclo de violência que muitas vezes começa com o controle psicológico e o isolamento social. Ao expor fotos e trajetórias de mulheres silenciadas, a Casa SESI provoca o espectador a sair da zona de conforto. A arte aqui não serve para adornar paredes, mas para salvar vidas ao informar sobre canais de denúncia como o Disque 180 e as redes de apoio psicossocial.
Mãos de Mulher e a potência da fotografia paraense
Em contrapartida à dor do feminicídio, a mostra Mãos de Mulher celebra a vida sob o olhar sensível de oito fotógrafas paraenses. Esta exposição é uma ode à força produtiva feminina na Amazônia, revelando histórias de artesãs, ribeirinhas, empresárias e trabalhadoras que sustentam a economia criativa do estado. Através das lentes, percebemos que a mão que produz é a mesma mão que resiste e que preserva a cultura ancestral.
Ana Cláudia Moraes, gerente executiva de cultura do SESI Pará, enfatiza que a curadoria buscou valorizar o território e os saberes das mulheres amazônidas. A fotografia atua como um documento histórico da nossa identidade cultural, mostrando que a economia da região possui um rosto feminino e resiliente. As imagens capturam o cotidiano laboral com uma dignidade que muitas vezes é ignorada pelas estatísticas tradicionais do mercado de trabalho.
Estudos recentes sobre a economia criativa no Brasil indicam que as mulheres lideram a maioria dos empreendimentos artesanais e culturais. No Pará, essa realidade é ainda mais latente, onde a liderança feminina é o pilar de comunidades inteiras. A exposição oferece visibilidade a esse trabalho, incentivando o público a valorizar a produção local e a reconhecer o valor de mercado gerado por essas mãos.
O Pacto Pró-Equidade Racial e a transformação organizacional da FIEPA
A iniciativa de abrir estas exposições não é um fato isolado, mas parte de um compromisso estrutural. O Sistema FIEPA é signatário do Pacto Interinstitucional Pró-Equidade Racial, uma resolução do Tribunal de Contas do Estado do Pará (TCE-PA) que visa combater o racismo estrutural nas instituições. Como a maioria das vítimas de feminicídio no Brasil são mulheres negras, a interseccionalidade entre raça e gênero torna-se um debate obrigatório dentro da federação.
O presidente do Sistema FIEPA, Alex Carvalho, defende que a indústria precisa ser o motor não apenas de lucros, mas de uma sociedade mais inclusiva. Ao adotar políticas de equidade, a federação busca transformar sua própria cultura organizacional, promovendo igualdade de oportunidades para homens e mulheres de todas as etnias. O desenvolvimento sustentável do Pará, segundo Carvalho, passa obrigatoriamente pelo respeito à diversidade e pelo enfrentamento de desigualdades históricas que ainda freiam o progresso humano na região.
O papel do SESI na promoção da cidadania e diálogo social
Para o superintendente do SESI Pará, Dário Lemos, a Casa SESI consolidou-se como um porto seguro para o diálogo social em Belém. Ele afirma que o papel da instituição vai muito além da oferta de cursos técnicos ou assistência à saúde do trabalhador. Promover cidadania significa utilizar a infraestrutura disponível para provocar reflexões profundas sobre os problemas que afligem a sociedade.
Shirley Klautau, gerente executiva de gestão de pessoas, complementa essa visão ao afirmar que momentos como este são fundamentais para valorizar e dar voz às mulheres dentro e fora das fábricas. A integração entre os setores de cultura e gestão de pessoas demonstra que a sensibilidade artística é uma aliada poderosa na construção de ambientes de trabalho mais justos e acolhedores.
Impacto da cultura na saúde mental e na prevenção da violência
Além do aspecto político e econômico, existe um benefício psicológico direto na democratização do acesso à arte. Exposições que abordam traumas coletivos, como o feminicídio, permitem que a sociedade processe o luto de forma produtiva. A arte terapia e a visualização de trajetórias de superação ajudam a quebrar o tabu sobre a saúde mental feminina, muitas vezes negligenciada em contextos de opressão.
A Casa SESI atua como um espaço de acolhimento onde o visitante pode, ao mesmo tempo, informar-se sobre seus direitos e encontrar inspiração nas histórias de sucesso apresentadas na mostra Mãos de Mulher. Essa dualidade entre o alerta e a celebração é o que torna a temporada cultural de 2026 tão necessária para o calendário de Belém.
Serviço detalhado e informações para visitação
As exposições permanecem abertas ao público até o dia 30 de abril de 2026, oferecendo uma oportunidade única para escolas, coletivos e cidadãos em geral aprofundarem seus conhecimentos sobre as questões de gênero no Brasil. A entrada é totalmente gratuita, reafirmando o compromisso com a democratização cultural.
- Local Casa SESI Indústria Criativa
- Endereço Avenida Comandante Brás de Aguiar, 607, Nazaré
- Período De 17 de março a 30 de abril de 2026
- Horário De segunda a sexta em horário comercial
A visitação em grupo pode ser agendada previamente através dos canais oficiais do SESI Pará, garantindo uma mediação cultural qualificada que ajude a explorar todos os detalhes técnicos e conceituais das obras expostas.


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