Se você tem sintomas muito leves de gripe, não vá ao hospital: orientação é ficar em casa

Conforme o COVID-19 foi classificado como pandemia pela Organização Mundial da Saúde (OMS), muita gente ficou com dúvidas, especialmente quanto a o que fazer em caso de suspeita de coronavírus. Apesar do pânico, porém, nem todo mundo com sintomas deve buscar hospitais, e agir contra as recomendações oficiais pode sobrecarregar o sistema de saúde, trazendo consequências a todos.

O que fazer em caso de sintomas de coronavírus

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Quem tiver sintoma muito brando deve ficar em casa

Diante das muitas especulações e informações embaralhadas sobre o que fazer ao manifestar sintomas de COVID-19, o médico Drauzio Varella participou de uma conversa a respeito das recomendações corretas e, no vídeo, publicado em seu perfil no Twitter, ele explicou que quem tem sinais leves da doença, como nariz escorrendo e um pouco de febre, deve ficar em casa em vez de ir ao pronto-socorro.

“É uma questão de cidadania saber que tem gente que está precisando mais do que você”, disse. “Você não tem sintomas graves, está bem, bem disposto, só com incômodos – tosse, nariz escorrendo –, fica em casa! Não vai criar problema no sistema de saúde”, afirmou o médico, lembrando, porém, que alterações neste quadro podem pedir uma mudança na conduta.

Consultado pelo VIX, o também infectologista Ingvar Ludwig, da BP, a Beneficência Portuguesa de São Paulo, concorda com a recomendação e reforça que o quadro só é considerado mais grave quando há persistência da febre e um sintoma respiratório importante, como falta de ar.

O Ministério da Saúde também fez a mesma recomendação sobre o assunto nesta sexta-feira (13). Em coletiva de imprensa, o Secretário de Vigilância em Saúde, Wanderson de Oliveira, reforçou que quem estiver apenas com sintoma muito brando, como coriza, deve ficar em casa de repouso, e não buscar atendimento médico para não sobrecarregar o serviço, e ligar para o número 136 para obter orientações.

Quando ir ao posto de saúde (ou consultório particular)?

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Segundo o Secretário de Vigilância em Saúde, a indicação para buscar um posto de saúde (ou clínica particular) é para quem tem a forma leve da doença. Neste caso, a orientação é evitar prontos-socorros ou UPAs (Unidade de Pronto Atendimento) e recorrer a postos de saúde, que farão sistema de triagem rápida.

Ludwig reafirma a orientação. “Os sintomas mais comuns são febre [acima de 37,8°], tosse, coriza, dor de garganta, fraqueza e dor no corpo. Estes sintomas se resolvem apenas com repouso, hidratação e tempo”, explica, descartando a necessidade de atendimento hospitalar nestes casos.

Segundo o Ministério da Saúde, devem procurar atendimento médico:

  • quem está com febre + algum sintoma respiratório + teve contato próximo com caso confirmado ou suspeito ou
  • quem está com febre ou sintoma respiratório + viajou para área afetada nos últimos 14 dias

O Ministério da Saúde não tem uma orientação específica sobre os casos que têm indicação para atendimento em prontos-socorros, mas orienta que Unidades Básicas de Saúde e consultórios encaminhem pacientes diagnosticados com Síndrome Respiratória Aguda Grave aos serviços de urgência/emergência ou hospitalares de referência.

Segundo Ludwig, os sinais mais graves são febre persistente, calafrios e principalmente a falta de ar. “Na presença destes sintomas, o atendimento médico deverá ser procurado”, afirma. Em seu vídeo, Drauzio Varella tem opinião similar: “[Se] começou a sentir falta de ar, aí tudo bem, vai para o hospital.”

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Por que ficar em casa é uma medida importante?

Para Varella, descartar a ida ao hospital em quadros mais brandos é uma questão de pensar no próximo, já que, segundo estudos realizados até agora sobre o COVID-19, a doença se apresenta como um resfriado inofensivo em mais de 80% dos casos, e sobrecarregar o sistema de saúde em meio a uma pandemia com idas desnecessárias ao pronto-socorro demanda recursos e põe em risco outras pessoas.

Assim como Drauzio, Ludwig também cita a necessidade de fazer um uso sábio dos recursos de saúde; segundo o infectologista, o aumento expressivo de casos, algo previsto, causará uma demanda repentina no sistema de saúde, tanto de atendimento quanto de internações e exames complementares, então ir ao hospital sem necessidade pode piorar a situação.

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“Não existe um tratamento específico para o vírus, não há medicação ou vacina e, na grande parte dos casos, não há indicação de internação. Quando ela existe, o tratamento consiste em suporte e correção de complicações que podem acontecer ao longo da evolução da doença. Estes recursos devem ser priorizados para pacientes que realmente necessitam e se beneficiam do atendimento”, diz.

Risco de transmissão em hospitais é alto

Além disso, tanto Ludwig quanto Varella enfatizam que, apesar de tratarem problemas, estabelecimentos de saúde funcionam como ambientes de transmissão. “Nas duas grandes epidemias de coronavírus, o SARS-CoV na China em 2002 e 2003, e o MERS-CoV no Oriente Médio em 2012, cerca de 60 a 70% dos casos foram transmitidos em estabelecimentos de saúde”, afirma Ludwig.

Isso significa que, ao mesmo tempo em que uma pessoa saudável pode ir ao hospital para avaliar sintomas brandos com medo do COVID-19 e acabar adquirindo a doença lá, ela também pode transmitir o vírus para um número grande de pessoas – inclusive as de organismo mais vulnerável, como idosos e pacientes que já possuem outras comorbidades.

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Fora o risco de transmissão entre pacientes, Varella também enfatizou o impacto que isso pode ter nos profissionais da saúde em si. “Se não tivermos cuidado, podemos ter uma epidemia de coronavírus na enfermagem, vai faltar gente para atender os doentes”, afirmou o médico. Por este motivo, Ludwig afirma que pacientes indo ao atendimento médico com tosse e espirro entre os sintomas devem agir de forma adequada.

“Cabe ressaltar que a pessoa com sintomas respiratórios (tosse, coriza, dor de garganta), ao procurar um serviço de saúde – seja posto, clínica ou hospital – deve utilizar máscara simples durante o processo do seu atendimento”, afirma o médico, lembrando que as medidas de prevenção do coronavírus são especialmente válidas nestes casos.

“Outros cuidados também devem ser tomados para diminuir a chance de transmissão: evitar tocar o rosto frequentemente, cobrir a boca e o nariz ao tossir ou espirrar utilizando o cotovelo ou lenço descartável, higienizar as mãos frequentemente e, principalmente, após contato com secreções como coriza, saliva e escarro”, pontua.

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Recomendação para pessoas idosas, com doenças prévias e imunidade baixa

Para pessoas com mais de 60 anos ou que já têm doenças cardíacas, pulmonares ou que têm comprometimento imunológico, Ludwig afirma que a recomendação segue sendo a de buscar atendimento hospitalar apenas com o aparecimento de sintomas graves, como a falta de ar, mas o infectologista também frisa que elas devem avaliar os próprios sintomas com bastante cuidado.

“Pacientes com mais de 60 anos ou com as condições mencionadas devem observar mais atentamente seus sintomas. Neles, a percepção da piora precoce do quadro a partir do seu início, a elevação ou persistência da febre, aumento da tosse e da secreção, e, sobretudo, falta de ar ou maior cansaço para as atividades habituais devem motivar busca por atendimento médico”, frisa o médico.