Autodidata, precursor da lambada e criador da guitarrada, o guitarrista paraense Joaquim Vieira de Lima (1934 – 2018), ou Mestre Vieira, tem sua obra revisitada e toda a sua produção documentada no projeto Inventário Mestre Vieira, da jornali50sta e produtora cultural Luciana Medeiros. Mistura de choro, maxixe, carimbó e outros ritmos latinos como cumbia e merengue, a guitarrada tornou-se patrimônio cultural do estado do Pará em 2011.

A história de Luciana com o músico paraense teve início há mais de dez anos. “Ouvi falar pela primeira vez no Mestre Vieira, em 2003, quando trabalhava na TV Cultura do Pará. Depois me aproximei mais da guitarrada com o projeto Mestres da Guitarrada [que reuniu Vieira, Curica e Aldo Sena]. Foram os primeiros shows que vi com a participação dele, achei demais. Mas, além dos shows em Belém, acompanhei pela imprensa a repercussão do projeto pelo Brasil. Naquela época, a explosão da guitarrada foi um fator importante para a projeção que a música paraense vem alcançando desde então”, diz Luciana.

Após um encontro com o músico em sua cidade natal, Barcarena, em 2008, Luciana decidiu produzir um documentário sobre o artista. “Fiquei admiradíssima pelo protagonismo de Vieira, movimentando a cultura de sua cidade, que também não estava muito atenta à sua importância para o cenário brasileiro. E foi isso o que mais me motivou a ir até ele. Já vi muitos mestres incríveis como ele morrerem sem o devido respeito e reconhecimento”, diz a produtora, que levou mais três anos para conseguir realizar o documentário Coisa Maravilha, em 2011, quando criou também um site sobre o artista.

Luciana vai organizar todo o material que reuniu em dez anos e complementar a pesquisa para produzir o primeiro songbook de Mestre Vieira, com partituras de 30 composições do artista. Com tiragem de mil exemplares, o livro terá também entrevistas e trechos de encartes de discos e de reportagens veiculadas na imprensa nacional.

O projeto inclui ainda a reformulação do site mestre vieira para que todo esse conteúdo fique disponível. Além da biografia e da discografia organizadas de forma cronológica, capas e fichas técnicas dos LPs, músicas originais digitalizadas dos vinis e partituras para download, o público encontrará no site fotos de bastidores das gravações do DVD 50 Anos de Guitarrada, também produzido por Luciana, e da filmagem do documentário Coisa Maravilha, entre outros. Também estarão no site 20 vídeos com entrevistas de músicos e pesquisadores.

Pesquisa de pós-graduação revela o olhar de um guitarrista para outro

Mestre Vieira foi um músico paraense muito querido, seu talento deu grande contribuição para a música e a cultura regional. A criação da guitarrada trouxe uma nova forma de se tocar a guitarra elétrica no norte do país. A simplicidade, a técnica e o talento eram tão impressionantes que conquistaram o mundo. Assim, embalado pelos ritmos, o guitarrista e professor Saulo Christ Caraveo desenvolveu a dissertação A Nascente de um Rio e Outros Cursos: A Guitarrada de Mestre Vieira (PDF), no Programa de Pós-Graduação em Artes (PPGARTES/ICA), orientado pela professora Sônia Chada.

De acordo com Saulo Caraveo, a representatividade do Mestre Vieira motivou-o a pesquisar sobre a “guitarra da guitarrada” e a entender mais as técnicas, pois este era um tema que o autor já estudava. Mas, após iniciar a pesquisa, a dissertação se transformou em um percurso antropológico sobre a história de Vieira. “Toda a ideia de escrever sobre questões harmônicas e melódicas, dos arpejos e dos gêneros que incentivavam as composições, ficou de lado”, conta o pesquisador.

“Eu morei perto de uma sede onde tocavam as gafieiras e também aconteciam as festas de aparelhagens. Tive muito contato com esse universo. Um dos objetivos do trabalho era fazer uma análise musical das guitarradas e, principalmente, da trajetória de Vieira e de como ele instalou esse tipo de música, colocando-o em um lugar na história da guitarra, no mundo”, relembra Saulo. O processo metodológico foi a Etnografia, com a abordagem do trabalho dentro da Etnomusicologia. Foram feitas entrevistas com o próprio Mestre Vieira e com outras pessoas que fizeram parte da trajetória do artista.

Saulo Caraveo entrevistou Vieira meses antes de seu aniversário de 83 anos. De acordo com o professor, a entrevista foi reveladora. “Após a morte de Vieira, conversei com Dejacir Magno, o primeiro cantor da banda dele chamada ‘Os Dinâmicos’. Em meio a tudo isso, surgiu o Clube da Guitarrada e eu participei de vários eventos do clube. Os filhos do Vieira também tocaram lá. Foi um envolvimento tão intenso que me deu essa propriedade para falar sobre o assunto sob a minha perspectiva como guitarrista, pesquisador e fã do Vieira”, afirma o pesquisador.

De tanto se envolver com a história de Mestre Vieira, a dissertação acabou virando uma etnografia particular, trazendo a visão de um guitarrista sobre outro. “O fato de Vieira ter desenvolvido um gênero musical baseado na sua vivência é maravilhoso. E eu consegui contar essa história com os depoimentos dele e dos filhos, da visita ao acervo da família e da documentação que encontrei”, revela Saulo Caraveo.

Saulo destaca que Vieira foi muito importante para o surgimento de outros cantores na música paraense. “A guitarrada surge nos anos de 1970, diante de um contexto histórico muito importante. O fato de ele sair de Barcarena (PA) e conquistar o mundo é fantástico! Alguns dizem que ele cria a lambada nessa mesma época, e, nessa trajetória, vem o Beto Barbosa, a Banda Kaoma”, conta o músico. Com o crescimento desses artistas, a guitarrada e a lambada instrumental que Mestre Vieira fazia caíram um pouco em desuso.

Nesse sentido, o pesquisador chama atenção para a importância do músico paraense Pio Lobato. Segundo Saulo Caraveo, Pio resgata a guitarrada com seus trabalhos. Contudo o professor acredita que muitas pessoas, aqui mesmo no Pará, não conhecem a guitarrada, e isso fica claro nos momentos em que apresenta os resultados da pesquisa.

“Existe uma luta sobre quem é o criador da lambada. Vários artistas reivindicam a autoria. Eu acho que está tudo dentro de um contexto de contribuição para o surgimento da lambada. Só que o Vieira foi especial. Ele deu tons finais para o que é a guitarrada hoje”, avalia Saulo Caraveo.

Movimento pós-moderno na Amazônia brasileira

Hoje, a guitarrada é um gênero musical instrumental, uma “nova” forma de se tocar guitarra no mundo. “A guitarrada tem esse sotaque que é particular e não é fácil tocar”, afirma Saulo Caraveo. Por isso Caraveo acredita que o Mestre Vieira merecia um lugar especial na historiografia mundial da guitarra elétrica, pois a técnica desenvolvida por ele é quase impossível de copiar.

Para o músico, existe agora uma nova geração de guitarristas. “O Pio Lobato e o Félix Lobato fazem parte dessa geração contemporânea da guitarrada, e outros estão surgindo. Para mim, a guitarrada se tornou um movimento pós-moderno, considerando cultura, espaço e tempo na Amazônia brasileira”, revela o pesquisador.

Em Barcarena, Mestre Vieira era um ídolo e um grande representante da cultura local. Suas histórias eram conhecidas na cidade e contadas com muito orgulho e apreço. Mestre Vieira morreu em 2 de fevereiro de 2018, aos 83 anos. Deixou mais de 15 discos gravados e um legado que serve de inspiração para muitos artistas paraenses. Para homenagear a história de Vieira, a Prefeitura Municipal de Barcarena decretou o dia 29 de outubro, data de seu nascimento, o Dia Municipal da Guitarrada.

“A minha pesquisa tem o meu olhar como guitarrista. Eu me envolvi muito com o movimento da guitarrada. Conhecer o Vieira e entrevistá-lo foi uma maneira de me aproximar do criador. Perceber o que ele sentia quando falava sobre a sua criação foi enriquecedor. Esta foi a primeira dissertação sobre o assunto e espero que outras pessoas deem continuidade”, finaliza.

DVD dos 50 anos da guitarrada

Gravado ao vivo no Theatro da Paz, em julho de 2012, durante duas noites de shows, repletas de emoção e convidados especiais, o primeiro DVD da carreira de Mestre Vieira será lançado nesta sexta-feira (25), na Estação das Docas, em Belém. O show começa às 20h, no anfiteatro São Pedro Nolasco da Estação das Docas, com entrada franca.

O lançamento do DVD “Mestre Vieira – 50 Anos de Guitarrada”, na Estação das Docas em Belém, contou com a participação da banda Os Dinâmicos e convidados especiais, às vésperas do aniversário do criador da guitarrada que completou 79 anos no dia 29 de outubro de 2013.

Gang do Eletro, Lia Sophia, Pio Lobato, Gaby Amarantos, Os Dinâmicos, Luiz Pardal, Sebastião Tapajós, Paulinho Moura, Trio Manari, Mestre Curica, Felipe Cordeiro, Manoel Cordeiro, Fernando Catatau, Iva Rothe, Vovô, Breno Oliveira, Otávio Gorayeb, Toninho Abenatar, além de sues filhos Waldecir, Wilson, Kim e seu neto Eric Vieira e um amigo já saudoso, Beto Marques.

O repertório com Os Dinâmicos trouxe as músicas cantadas de maior sucesso além de algumas pérolas como “Você voltou pra mim”, cantada por Lia Sophia e seu banjo, e “Esse Bode dá Bode “e “Eu vendi esse bode”, músicas do segundo e terceiro LPs, executadas pelo guitarrista Fernando Catatau, um dos convidados, que também arriscou cantar os refrões com Dejacir Magno.

A direção musical do trabalho é do produtor musical e guitarrista Félix Robatto, com direção geral de Luciana Medeiros. O DVD traz Mestre Vieira se apresentando com Os Dinâmicos, banda formada por Dejacir Magno (voz), Luis Poça (teclado), Lauro Honório (guitarra base) e Idalgino Cabral (baixo), músicos que integraram as primeiras formações do grupo Vieira.

facebook lançamento do dvd 50 anos
(banner: reprodução facebook)

Homenagens

Os Dinâmicos, é um filme de animação que conta a história de Vieira e seus amigos. Disponível no canal de Luciana Medeiros.

Ainda em 2020, a jornalista fez o documentário Coisa Maravilha – A Invenção da Guitarrada, que conta a história do Mestre.

Existe um projeto de transformar a casa do Mestre Vieira em um espaço de memória, com suas guitarras e objetos pessoais preservados.

29 de outubro, data do nascimento de Mestre Vieira, foi decretado pela Prefeitura Municipal de Barcarena como o Dia Municipal da Guitarrada para homenagear o guitarrista, que faleceu em 2 de fevereiro de 2018 na UPA da cidade de Barcarena. Desde 2016 vinha lutando contra um câncer de próstata.

youtube documentário coisa maravilha mestre vieira
(foto: reprodução youtube)

A última entrevista

A guitarrada inventada por Vieira saiu de uma técnica do choro, da transposição pura da linguagem do bandolim que tocava para seu novo instrumento. Apesar de seu fascínio inicial pelo rock, ele não se contaminou pelo estilo que definiria a performance de outros guitarristas. Vieira criou assim a escola de guitarra mais brasileira de todas, sem distorção, de bends discretos, fraseado limpo.

Entrevista feito ao jornal “O Estado de São Paulo”:

“Uma tarde em uma sala de cinema de Belém e o impensável se tornaria possível naquelas terras do Norte. Guitarra ainda era objeto das galáxias e guitarrista um ser mitológico quando Vieira viu na tela grande, com seus 14 anos, um homem tirando de um instrumento desses uma música que nunca havia passado pelo mundo.

Vieirinha pegou o barco de volta ao povoado de Barcarena, ainda em estado de choque. O bandolim que sabia tocar graças ao incentivo do pai português tinha, em algum lugar
do planeta, um primo maior, mais robusto e mais pesado com uma sensibilidade de fazer chorar. Vieira precisava de uma geringonça daquelas. “Eu quero tocar aquele pau elétrico.”

Mestre Vieira, aos 82 anos, fala baixo ao lembrar da própria história. Ele tem feito isso mais vezes depois de uma reavaliação pela qual passou a música paraense nos anos 2000 e, mais profundamente, diante das câmeras da jornalista Luciana Medeiros, que já
finalizou um documentário, Coisa Maravilha, a Invenção da Guitarrada, para ser exibido no segundo semestre.

Vieira recebe o jornal em sua casa na mesma Barcarena em que nasceu, fez sua revolução particular e permaneceu para torcer pelo Clube Atlético Barcarenense com a mesma
devoção que coloca na divindade dependurada na parede do quarto.

Ela está lá, uma guitarra Ibanez Artcore AF75 semiacústica de nome Milagrosa. “Por que Milagrosa, Mestre?” “Porque eu faço com ela uns milagres por aí”, diz. Foi assim desde o início, depois do bendito filme do qual se esquece o nome. Sem uma loja na cidade que vendesse nada parecido com aquilo, Vieira foi agraciado pela primeira bênção: um amigo
da Marinha lhe trouxe, de passagem pelos EUA, um instrumento novinho, mas desmontado e sem manual de instruções.

Deus ensina a pescar sem dar o peixe. O irmão marceneiro conseguiu pôr os parafusos na maioria dos buracos e as cordas de aço foram aproveitadas de um violão da família já
na fila da Previdência. A guitarra estava pronta, mas não saía som. O segundo milagre veio então pelas mãos de um padre italiano.

Entendido em fios e alto-falantes, ele ensinou o garoto a usar a bateria de um carro
para energizar um sistema de rádio, primo distante de uma caixa amplificadora, e emprestava as trombetas da paróquia para a propagação do som. Já havia a guitarra e o amplificador, só faltava a banda.

Vieira saiu pelas igrejas de Barcarena caçando talentos por trás dos hinos de louvor. O
baixista veio com o mesmo espírito arquitetônico de Vieira: seu baixo tinha apenas duas cordas, não possuía trastes e só um captador de violão.

Era o suficiente. Com mais Dejacir no vocal, Lauro na base e Pereira na bateria, Mestre Vieira tinha sua tropa de choque intitulada Os Dinâmicos para conquistar o mundo. E para lá foram eles.

A guitarrada inventada por Vieira saiu de uma técnica do choro, da transposição pura da linguagem do bandolim que tocava para seu novo instrumento. Apesar de seu fascínio inicial pelo rock, ele não se contaminou pelo estilo que definiria a performance de outros
guitarristas. BB King?

Não conhece. Chuck Berry? Nunca ouviu falar. Jacob do Bandolim? Um herói. Vieira criou assim a escola de guitarra mais brasileira de todas, sem distorção, de bends discretos, fraseado limpo. Mesmo quando é só instrumental, sua música é avassaladoramente
popular.

Desde o dia em que prenunciaria o futuro de um gênero colocando o nome de seu primeiro disco de Lambada das Quebradas, em 1978, até o documentário que em breve vai recolocá-lo em voga, Vieira lançaria 18 discos ao todo, na grande maioria LPs nunca editados em CDs.

“Viajamos a Fortaleza, Recife, Natal, Salvador. Depois, fui conhecer Londres, que tinha aquele relógio grande na praça, Portugal, Alemanha, África do Sul. As pessoas ficavam doidas com o som”, ele conta, sem precisar exatamente os fatos e com movimentos lentos que revelam a fragilidade física. O tratamento contra um câncer iniciado na próstata tem alternado o estado de espírito de seus dias. “As histórias estão todas no documentário”, conta Luciana Medeiros.

“Vieira já foi reconhecido como patrimônio cultural de Barcarena.” Seu segundo projeto
sobre a história de Vieira e os Dinâmicos, que voltam à estrada graças ao documentário se apresentando com três integrantes originais mais o tecladista Luiz Poça, é uma série de animação com o nome da banda. E um terceiro, um songbook com as principais músicas do mestre, deve servir para deixar registrado em cartório todos os feitos de Milagrosa.

Por nunca ter querido deixar sua terra, Mestre Vieira talvez tenha pago um preço alto por essa decisão. “Ele quis ficar e nós acabamos não aparecendo tanto quanto poderíamos”, diz o guitarrista Lauro, tentando entender por que Os Dinâmicos não foram levados pelas
graças da lambada quando esse gênero se esparramou pelo País. O fato é que Vieira tem raízes profundas. Sua música, gravada até hoje em estúdios barcarenenses, não foi domesticada nem embrulhada para presente.

Fontes: Itaú Cultural, Beira do Rio, G1 Pará, Ver-o-Fato, Gazeta Web, Holofote Virtual.