O próximo passo do cooperativismo de plataforma

Entre vários tópicos que foram destaque em 2021, o cooperativismo de plataforma foi um dos que mais chamou atenção. Por se conectar diretamente com a missão e o propósito das cooperativas, as plataformas digitais estão ganhando um grande espaço, e agora atraem novos negócios.

Em meio ao distanciamento necessário durante a pandemia, criar plataformas para unir pessoas e negócios foi essencial para “manter a roda girando”. Agora, com a proximidade de um novo ano, expectativas começam a ser criadas, de olho no que o cooperativismo de plataforma nos reserva para 2022 e além.

Transformação

A migração para os meios digitais remete ao período pré-pandemia, resultado da acelerada digitalização dos processos diários. Diante desse cenário, entender o que tornou o cooperativismo de plataforma um tópico tão relevante em 2021, torna-se uma tarefa fácil. Para Rafael Zanatta, Diretor da Associação Data Privacy Brasil de Pesquisa, tal movimento do mercado era esperado. “A plataformização é um fenômeno comum a praticamente todos os setores econômicos. A pandemia acelerou processos de transformação digital e criou novas formas de sociabilidade”, ele destaca.

Rafael Zanatta, Diretor da Associação Data Privacy Brasil de Pesquisa

Porém, o cooperativismo de plataforma não se firmou como o modelo ideal apenas em cima de fenômenos positivos. O desemprego e a falta de expectativas diante do mercado de trabalho, foram impulsionadores do cooperativismo de plataforma como uma solução para o futuro.“A pandemia escancarou as desigualdades sociais e o fosso entre os ricos e os pobres. Trouxe à tona uma dimensão de solidariedade aos trabalhadores de plataformas digitais, especialmente os serviços sob demanda”, ressalta.

Atual cenário

Diante da constatação de que o cooperativismo de plataforma é uma solução viável para os problemas do mercado, logo nos perguntamos o que estamos fazendo a respeito, e o que podemos fazer. Para Zanatta, neste grande tópico, o Brasil possui um cenário animador, com o cooperativismo de plataforma sendo um fenômeno nacional.

“O Brasil é um dos mercados mais fascinantes para cooperativismo de plataforma no mundo. Isso se dá por pelo menos três fatores: população altamente conectada à internet (152 milhões de usuários), tradição de cooperativismo forte (mais de 6.500 cooperativas) e novos projetos que buscam a conexão entre inovação e cooperativismo nas economias digitais, como os da Escoop, InovaCoop e Coonecta”, destaca.

Mesmo sendo uma tendência mundial, o cooperativismo de plataforma – fora do Brasil – possui barreiras que ainda precisam desaparecer. A maior delas está na concentração de iniciativas, que ao contrário do ambiente brasileiro, se comporta de outra maneira. “Nos EUA, o que se observa é um crescimento mais local, em algumas cidades, como Nova Iorque, Chicago e Seattle, impulsionado por políticas públicas municipais. O mesmo ocorre em Barcelona e Turim, onde o apoio é municipal”, ressalta.

Com uma expansão menor, a capacidade do cooperativismo de plataforma se firmar de vez nesses países é uma realidade um pouco de distante. Enquanto isso, no Brasil o cenário traz resultados e perspectivas interessantes, sobretudo devido ao envolvimento de entidades no tema. “No Brasil, uma das vantagens é a possibilidade que o sistema de cooperativismo (OCB) abrace e impulsione o cooperativismo de plataforma. Esse sistema é poderoso pois possui capilaridade, recursos, escolas de cooperativismo e visibilidade institucional, inclusive em nível federal. Isso é bastante raro em comparação a outros países no mundo e pode ser bem aproveitado”, afirma.

Cooperativas em foco

Cientes dos benefícios do uso de plataformas no ambiente de negócios, as cooperativas estão completamente conectadas com a agenda mundial, colocando o cooperativismo de plataforma como um tópico indispensável. Para Samara Araújo, Coordenadora de Processos do Sistema OCB, a relevância do tema já se mostra no país, diante do interesse cada vez maior por parte das cooperativas.

Samara Araújo, Coordenadora de Processos do Sistema OCB

“Existe uma demanda crescente por informações sobre o assunto. Não só cooperativas estabelecidas querem saber mais sobre o tema e possibilidades das plataformas para inovarem em seus negócios cooperativos”, ela nos conta. Além disso, pessoas de fora do setor também tem se atentado ao cooperativismo de plataforma e suas possibilidades, dando ainda mais relevância para o tema.

Com uma grande demanda pelo tema, a OCB tem sido uma das principais entidades do país a trabalhar o tema do cooperativismo de plataforma, seja realizando e oferecendo cursos e capacitações sobre o tema, ou criando do zero, plataformas para que as cooperativas se conectem no ambiente de negócios. Entre as iniciativas que Araújo destaca, está a plataforma InovaCoop e a NegóciosCoop, que oferecem capacitação e produtos das cooperativas, respectivamente.

Além disso, atualmente a entidade trabalha em projetos para ramos específicos do movimento cooperativista, algo que deve impulsionar o cenário do cooperativismo de plataforma no Brasil. “Temos atuado de diferentes maneiras para fomentar o cooperativismo de plataforma no Brasil. Recentemente, desenvolvemos um programa para conectar startups a cooperativas. Por meio do programa, apoiaremos o desenvolvimento de 2 cooperativas de plataforma digital. Uma plataforma no Ramo Transporte e outra plataforma no Ramo Trabalho, Produção de Bens e Serviços. Neste momento estamos na fase de desenvolvimento do projeto piloto”, Araújo nos conta.

De olho nos próximos passos

Com 2022 se aproximando, pensar em novas formas para disseminar o cooperativismo de plataforma tem sido uma das missões das entidades interessadas pelo tema. E com a retomada das atividades, agora o tema convive com um novo status quo: uma sociedade híbrida. Para Rafael Zanatta, o foco deve ser na integração desses ambientes, promovendo um acoplamento entre o ambiente físico e o digital.

“É importante pensarmos que essas novas formas de trabalho imaterial (design, computação, criação por projetos, estruturação de bancos de dados, georreferenciamento, análise de dados, comunicação, etc) pode se organizar de forma inclusiva e democrática ao invés de uma estrutura hierárquica onde um manda e outro obedece. Cada trabalhador tem voz e direito à voto. A aposta do cooperativismo é uma luta por dignidade, pertencimento e democracia econômica. Creio que isso se conecta a uma disputa maior sobre valores e sobre o tipo de sociedade que queremos”, ele nos conta.

Com o cooperativismo de plataforma crescendo como uma solução democrática para as demandas do mercado, os próximos passos devem estar focados na criação – efetiva – de ações que levem o tema para mais pessoas. Afinal, o desconhecimento ainda é uma grande barreira, e fazer o público entender a importância do cooperativismo de plataforma deve ser uma das principais preocupações das cooperativas, entidades e sociedade. Apenas assim, o tema terá o destaque que merece em 2022 e nos anos seguintes.

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