Mercado de carbono é forma mais rápida de financiar soluções verdes



Maior produtora global de celulose de eucalipto, a Suzano defende um mercado regulado de carbono e vê na COP26, em novembro, “oportunidade única” para fazer isso acontecer, com a regulamentação dos artigos 6.2 e 6.4 do Acordo de Paris.

Com o mote 2050 é agora, a empresa lançou nesta quinta (21) um posicionamento provocando o setor privado e governo a antecipar ações para atingir as metas climáticas do Acordo de Paris.

O lançamento veio acompanhado do anúncio de antecipação para 2025 da meta da empresa de sequestrar 40 milhões de toneladas de CO2 entre 2020 e 2030.

“Não dá para anunciarmos meta de carbono zero em 2050 e continuarmos a emitir de tarde mais do que falamos pela manhã. Temos que reduzir as emissões imediatamente”, disse Walter Schalka, CEO da Suzano, durante evento para jornalistas.

De acordo com o CEO, é preciso financiar soluções de descarbonização de forma rápida, e o modo de fazer isso é via mercado de carbono.

“Com investimentos na descarbonização vamos gerar oportunidades de negócios para um conjunto enorme de empresas e vamos gerar um meio ambiente adequado para as próximas gerações”, diz.

No posicionamento (.pdf), a empresa argumenta que o Brasil conta com uma aptidão natural para atividades com baixas emissões de gases de efeito estufa, e a adoção de um mercado internacional de carbono poderia gerar diversas oportunidades para ativos e produtos de baixo carbono, reforçando sua competitividade mundial.

“O país também pode se tornar protagonista neste mercado, gerando receitas líquidas de bilhões de dólares, atraindo investimentos para atividades de preservação ambiental, desenvolvimento social, conservação da biodiversidade, geração de energia renovável e inovações tecnológicas”.

A companhia defende ainda metas concretas e ambiciosas, que poderão criar alternativas de desenvolvimento sustentável para as comunidades locais, inclusive na região da Amazônia.

Regulamentação do Artigo 6

O debate sobre o Artigo 6 gira em torno da criação de ajustes nos compromissos de redução de emissões dos países para evitar dupla contagem. Isto é, impedir que o país que vende créditos de carbono os use também para cumprir suas metas.

Mas o governo de Jair Bolsonaro tem se posicionado contra esses mecanismos, o que enfraqueceria a credibilidade de um futuro mercado de carbono nacional.

Posição que preocupa o setor empresarial.

“O Brasil é um grande potencial vendedor de créditos de carbono, e se pensarmos em soluções baseadas na natureza, temos 50% da oferta global. Interessa muitíssimo ao país que este mercado seja qualificado e para isso precisa ter integralidade climática, ou seja, temos que mostrar que de fato este mercado está ajudando a reduzir as emissões”, alerta Marina Grossi, presidente do Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável (CEBDS).

Segundo Marina, apesar de o governo brasileiro ter bloqueado a discussão sobre o Artigo 6 na última COP, em 2019, o setor privado vê uma “maior flexibilidade” do Itamaraty em relação ao tema, com o ministro Carlos França indicando que o Brasil não vai obstruir este ano.

Desmatamento ameaça credibilidade de créditos brasileiros

André Guimarães, diretor executivo do Ipam (Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia), alerta que três quartos das emissões brasileiras estão ligadas ao uso da terra. E desse volume, mais de 60% vem do desmatamento.

“Se queremos de fato entrar nessa nova realidade, a grande contribuição do Brasil será com uma nova maneira de relacionar com as florestas nativas”, observa.

A Amazônia Legal perdeu 10.476 km² de floresta entre agosto de 2020 e julho de 2021, meses em que se mede a temporada do desmatamento. A taxa é 57% maior que a da temporada passada, além de ser a pior dos últimos dez anos, aponta o Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon). G1

Membro da Coalizão Brasil Clima, Florestas e Agricultura, André critica a condução atual da gestão Bolsonaro no combate ao desmatamento.

“Estamos em uma conjuntura muito ruim no Brasil hoje. Nos três últimos anos aumentaram em 50% o patamar de desmatamento na Amazônia e no Cerrado em relação aos três anos anteriores. O governo atual teve um papel relevante nesse aumento”.

E completa: “Estamos indo na contramão do que deveríamos estar fazendo. Aumentar a ambição é um bom negócio para o Brasil”.

Segundo André, o mundo está comprador de florestas em pé e o Brasil é um dos poucos países que tem muito a se beneficiar se for ambicioso nas ações para combater as mudanças climáticas.

“Mais de 90% do desmatamento na Amazônia é ilegal, isso é uma ação de Estado, que precisa combater com mão de ferro a ilegalidade. Ao fazer isso, nós estamos preservando as florestas, que podem se integrar nos mercados de carbono”.