Fiocruz descobre 176 patógenos da Amazônia que podem causar 76 doenças

Uma pesquisa realizada pela Fiocruz apontou para o perigo de novas epidemias e pandemias associadas à devastação da Amazônia. Publicado na revista Science Advances, o estudo descobriu 173 tipos de patógenos (vírus, bactérias, vermes, parasitas, fungos) associados à caça e que podem causar ao menos 76 doenças em seres humanos.

Os pesquisadores concluíram que todo o território brasileiro está suscetível a emergências ocasionadas por zoonoses (doenças transmitidas de animais para seres humanos), com uma maior probabilidade em áreas sob influência da Floresta Amazônica.

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Crédito: JuSun/istock Fiocruz alerta para riscos de futuras novas pandemias com a devastação da Amazônia

Os resultados, segundo a Fiocruz, colocam em evidência o desflorestamento e a caça de animais silvestres como fatores de grande relevância para o aparecimento de novas e antigas infecções.

Um exemplo é o Maranhão, que tem cerca de 34% do seu território coberto pela floresta tropical e é classificado como área com alto risco para surtos de zoonose. Enquanto o Ceará, estado vizinho, onde a Caatinga prevalece, apresenta baixo risco no surgimento de novas doenças.

“A Floresta Amazônica é uma região com alta diversidade de mamíferos selvagens e que vem sofrendo grande perda da cobertura florestal. Muitas espécies estão ficando sem habitat devido ao desmatamento, gerando desequilíbrio na dinâmica local”, explica Cecília Siliansky de Andreazzi, uma das autoras do artigo e, também, pesquisadora do Laboratório de Biologia e Parasitologia de Mamíferos Silvestres Reservatórios.

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Crédito: Fábio Nascimento / Greenpeace O risco existe em todo o Brasil, mas nenhuma região é tão vulnerável quanto a Amazônia, segundo o estudo

Risco de “transbordamento”

O contágio por infecções de origem animal acontece por meio do fenômeno conhecido como spillover, quando patógenos que circulavam restritamente em um grupo animal saltam da espécie e passam a infectar outras espécies, incluindo humanos. A expansão das atividades humanas para regiões de matas e florestas, naturalmente habitadas por animais silvestres, é um aspecto que favorece ainda mais esse cenário.

A carne de caça é um meio crítico para o “transbordamento” de patógenos de animais para os seres humanos, segundo o estudo. Em uma análise de rede, foram relacionadas espécies que são frequentemente caçadas de modo ilegal no Brasil com patógenos que potencialmente causariam danos graves à saúde pública.

“A infecção pode ocorrer em diversas etapas: ao adentrar a floresta, quando o caçador fica exposto a mosquitos, carrapatos e diversos outros vetores de patógenos; no ato da caça, ao sofrer um corte ou arranhão que entre em contato com fluidos animais; no preparo da carne, quando há o contato direto com vísceras, que também são comumente oferecidas como alimentos crus para cães e gatos de estimação; e no consumo final da carne, caso não seja bem armazenada ou cozida”, explica Gisele Winck, uma das autoras do artigo e pesquisadora do Laboratório de Biologia e Parasitologia de Mamíferos Silvestres Reservatórios do IOC.

Como a atividade ainda é essencial para populações tradicionais que utilizam a carne de caça para subsistência, os especialistas fazem um recorte de situação no artigo e recomendam a implementação de ações pontuais de garantia da segurança sanitária nesses grupos.

“É algo que precisa ser bastante discutido e avaliado. A caça é autorizada apenas para os povos tradicionais, porém ela continua ocorrendo fora desses grupos e serve como fator de interação entre pessoas e animais silvestres reservatórios de patógenos. Infelizmente, todos acabam sendo tratados erroneamente como igual. É preciso diferenciar populações que dependem desse consumo como fonte de proteína daqueles que atuam no tráfico de animal silvestre ou caça esportiva”, lembrou Cecília.

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