Pará+

Festividade De São Benedito De Almeirim, Mais De 100 Anos De Tradição, Fé, Devoção E Cultura.

SÃO BENEDITO, O SANTO PADROEIRO DE ALMEIRIM

O município de Almeirim situado no Baixo Amazonas, Oeste paraense, possui uma das mais tradicionais festas religiosas da região. Trata-se da Festividade do Glorioso São Benedito de Almeirim, realizada tradicionalmente no período de 20 a 30 do mês de junho de cada ano. São Benedito é o Santo mais popular de Almeirim, embora não seja o padroeiro oficial do município, a Igreja Católica instituiu e denominou este título à Nossa Senhora da Conceição. O Santo, porém, é aclamado e tido por muitos fiéis e populares como o “Padroeiro de Almeirim”. Há mais de 100 anos São Benedito está na crença popular e sua festividade é um misto de fé, tradição e cultura de um povo devoto de suas lições.

O COMEÇO DE UMA TRADIÇÃO DE FÉ E DEVOÇÃO

Tudo começou quando o Sr. João Felipe Gomes, morador do município de Gurupá e Folião de São Benedito de Gurupá, durante uma passagem de seu aniversário, ocorrido no mês de junho (sem uma data certa do dia do aniversário), recebeu como presente de sua irmã Hosana, uma imagem do Santo São Benedito, de quem era devoto. João Felipe Gomes veio até Almeirim trabalhar para o Coronel José Júlio, que na época era, talvez, o maior latifundiário do mundo. Suas terras no Estado do Pará nos municípios de Almeirim, Gurupá e Porto de Móz, assim como no Território Federal do Amapá (atual Estado do Amapá), beiravam aproximadamente três milhões de hectares. Ao chegar em Almeirim, João Felipe Gomes levou a imagem de São Benedito e festejou pela primeira vez numa localidade da região do Rio Jari, denominada Arapangüera. Pouco tempo depois, João Felipe Gomes se mudou para a Vila de Almeirim, trazendo consigo essa manifestação religiosa e continuou fazendo os festejos ao Santo, que passou a ser realizado na Sede do município, onde está localizada a Igreja Matriz.

A FASE DO CORONEL JOSÉ JÚLIO NA FESTIVIDADE

Nesse período, quando a festividade se iniciou na Vila de Almeirim, o Coronel José Júlio passou a patrocinar a festa. José Júlio mandava buscar os músicos e bandas, que na época geralmente eram formadas por instrumentos de sopro, chamados de metal; o Coronel também providenciava a vinda dos padres que na época não residiam em Almeirim, desde o assassinato do vigário Padre Amândio Pantoja, em 1862, na Serra do Panaicá, em Almeirim. Nesse período as despesas referentes à festa do Santo eram de responsabilidade do Coronel José Júlio, que providenciava transporte, alimentação e moradia para os artistas e também para os padres, pois nesse tempo Almeirim ainda não possuía Casa Paroquial. Quando terminava a festa, o Coronel José Júlio recebia os donativos em troca das despesas. Nesse período em Almeirim, durante a Festividade, a Igreja Católica realizava os batizados, a primeira eucaristia, a crisma e os casamentos devido a presença dos padres que vinham pela oportunidade da festa. Assim a fé e a devoção pelo Santo São Benedito de Almeirim desenvolveram um importante papel na história da religião católica no município, conseguindo manter através de São Benedito e sua Irmandade a fé viva dos fiéis e realizar suas celebrações e missas durante a festa dedicada ao Santo. São Benedito é tido como um Santo Milagreiro e graças a tantas bênçãos recebidas por seus devotos, ele é considerado por muitos populares como o “Padroeiro de Almeirim”, embora Nossa Senhora da Conceição seja a Padroeira oficial do município, muitos consideram que Almeirim possui uma Padroeira e um Padroeiro.

A FESTIVIDADE SE TORNA UMA DAS MAIORES FESTA DA IGREJA

No ano de 1923, o Santo passou a ser recolhido na Igreja, cujo o padre responsável pela Paróquia era o Frei Conrado que vinha de Santarém para fazer a festa. Muito embora não residisse um padre direto na cidade, sempre durante a festa de São Benedito em junho e em dezembro na festa da Padroeira vinha um padre para as celebrações religiosas: missa, procissão, batizados, eucaristia, crisma e os casamentos, participando até os últimos dias do festejo. Durante esse período, mesmo com a Igreja assumindo parte da responsabilidade da festividade, a realização da festa era dos Foliões sobre a coordenação do Sr. João Felipe Gomes.

FAMÍLIA CASTRO, GUARDIÃ DA FESTIVIDADE

Após a morte do Sr. João Felipe Gomes, a direção da festa foi assumida por seu sobrinho Eugênio Felipe Gomes, depois de algum tempo por Pedro Brazão. No ano de 1959, a direção da Festividade passou a ser responsabilidade direta da Família Castro, sob a tutela dos Srs. Raimundo Castro da Fonseca que assumiu as funções de Mestre-sala (Cantor da Irmandade) e Procurador (Coordenador geral e o Porta voz da Irmandade ), e Daniel Mendes da Fonseca como Mantenador (Rezador e responsável pelos foliões dentro da Irmandade). Até os dias atuais, a Família Castro continua guardiã da festa dedicada a São Benedito de Almeirim. Apesar de somente em 1959 a direção ter sido asssumida pela tradicional Família Castro, é importante ressaltar que essa família participou desde o início dessa Festividade na pessoa do próprio criador da festa, o Sr. João Felipe Gomes, que era Tio Avô dos tradicionais Castros que conhecemos hoje.

O RELIGIOSO E O PROFANO

Pesquisadores e historiadores dividem a Festividade do Santo em dois momentos: a parte religiosa e a parte profana. A parte religiosa acontece quando a Irmandade de São Benedito e seus foliões apresentam as ladainhas, a folia de louvores, a procissão e a Meia Lua, sempre acompanhados de cantos e rituais sagrados para os foliões. A parte profana da festa acontece onde se apresentam e dançam o folclórico Gambá (dança típica acompanhada de batuques e cantos ); as vendas de comidas típicas; bebidas e o popular Leilão do Santo, onde se arremata prêmios e brindes doados em forma de donativos para contribuir na arrecadação da Festividade. O leilão fez tanto sucesso nas décadas de 60, 70 e meados de 80, que este momento era muito esperado pelos participantes e se destacava como o grande leiloeiro da Festividade o Sr. Rosemiro Rodrigues, que tinha a responsabilidade de conduzir e induzir os populares a darem “o grito” no leilão popular.

A MODERNIZAÇÃO DA FESTIVIDADE

Apesar de continuar com a parte religiosa e profana, a Festividade sofreu alterações na sua organização. A festa que antes era realizada dentro de uma ramada, passou a ser feita dentro do Salão Paroquial da Igreja. Cada noite de festa passou a ter um grupo de pessoas chamados de “noitários” que seriam responsáveis pela programação da noite e conforme o poder aquisitivo do grupo, eram contratadas bandas musicais para tocar durante a noite em que eram responsáveis, passando a deixar assim um pouco de lado o som dos tambores que era característica expressiva da Festividade. As mudanças ocorreram gradativamente com o decorrer do tempo; em meados da década de 90, a partir de uma decisão da Diocese de Santarém, as Festividades tanto de São Benedito, comemorada em junho, quanto da Padroeira Nossa Senhora da Conceição, em dezembro, não poderiam mais realizar vendas de bebidas alcoólicas em seus arraiais. Destarte, limitando a organização da festa às vendas de comidas típicas como o pato no tucupi; mugunzá; tacacá; vatapá; churrasco; bolos; doces; refrigerantes; sucos e água mineral para beber. O arraial em si continua apresentando shows e danças da tradicional quadra junina, apresentadas por diversos grupos culturais, tanto local quanto grupos de outros municípios que são convidados para virem até Almeirim se apresentarem durante a Festividade.

IRMANDADE DE SÃO BENEDITO, TRADIÇÃO SECULAR QUE ATRAVESSOU GERAÇÕES

A Irmandade de São Benedito e seus foliões é uma atração à parte por sua secular tradição, suas apresentações se tornam o grande momento da festa, tanto na abertura quanto no encerramento da Festividade. Sua presença é marcante também nas procissões, percorrendo as ruas da cidade, na Meia Lua que tradicionalmente a romaria de fiéis navegam nas águas do Rio Amazonas participando com suas embarcações, sejam grandes ou pequenas, todas enfeitadas para agradecer ao Santo por suas graças recebidas durante o ano. Nas procissões o povo acompanha o andor com a imagem do Santo, enfeitado com fitas e flores, carregado pela Irmandade São Benedito, que sempre está vestida a caráter para esse momento tão sagrado, e também pelos demais devotos e promesseiros. As bandeiras estampadas com a imagem do Santo flamulam e cortam o ar pelas ruas e bairros da cidade, tendo como companhia um grupo de foliões entoando cantos e orações; e uma multidão de gente soltando fogos de artifícios, orando, cantando e pagando suas promessas após o recebimento de suas graças através de São Benedito, este Santo Milagreiro. E assim, os fiéis e devotos de São Benedito de Almeirim mantêm essa tradição há mais de 100 anos no município.

A FESTA DE HOJE COMO HÁ 100 ANOS ATRÁS

A Festividade de São Benedito se inicia com a levantação do mastro e segue o seguinte ritual: enquanto o mastro está na espera para ser levantado, os foliões de São Benedito dão uma volta com o andor do Santo em torno do mastro; uma vez o mastro levantado, a Irmandade do Santo e seus foliões dão mais duas voltas em torno do mastro, sempre cantando os cantos religiosos, acompanhados pelos toques rústicos dos tambores e todos os demais instrumentos que compõe a Irmandade de São Benedito de Almeirim.
A derrubada do mastro é outro momento marcante da festa. É com este ato que a Festividade se encerra. Antigamente o Juiz do mastro era o responsável pelo início da festa. Era ele quem ficava responsável pela preparação do mastro, desde a tirada de um pau que serviria de mastro, passando por sua ornamentação com ramos e frutas, e também colocava no topo do mastro o estandarte do Santo com sua bandeira que contém a sua imagem. Hoje a Paróquia com suas comunidades e lideranças, juntamente com a Irmandade de São Benedito coordenam a Festividade.
Antes de iniciar a derrubada do mastro os foliões cantam e levam o andor com o Santo para dar três voltas ao redor do mastro, para então ser dado início à derrubada. Os primeiros golpes são dos Juízes do mastro, para depois passar ao povo em geral que quiser cortar e ajudar na derrubada. Durante a queda do mastro, a pessoa que pegar o estandarte do Santo ficará como o Juiz do mastro para a festa do ano seguinte. Uma vez que o mastro esteja cortado, este será levado para um determinado local onde serão feitas as batucadas da festa sob entoadas de cantos e onde se dança o tradicional “Gambá” que somente a Família Castro sabe fazer com tanta maestria. Tão logo termine o corte do mastro, o Santo segue para a Igreja Matriz em procissão para rezar a ladaínha, encerrando oficialmente os festejos do Glorioso são Benedito de Almeirim. Ao ser encerrada a festa, São Benedito retorna ao seu lugar e fica recolhido e protegido dentro da Igreja Matriz.

A FÉ, A DEVOÇÃO, A TRADIÇÃO E A CULTURA DE UM POVO.

Salve, Salve São Benedito, servo eleito do Senhor. Assim a história se repete em Almeirim há mais de um século e os fiéis e devotos de São Benedito dão uma forte demonstração de Fé, Cultura e Tradição que vai sendo passada de geração para geração, de pai para filho, tornando viva essa Festividade religiosa com seus ritos e todo seu rico folclore que faz de São Benedito o Santo mais popular dessa região. Viva a São Benedito de Almeirim.

Sair da versão mobile