Curuçá abriga sítio arqueológico de 3 mil anos

Os vestígios revelam que a região foi ocupada por grupos humanos no período neolítico

Objetos que remontam o período neolítico foram encontrados em um sítio arqueológico no município de Curuçá, no nordeste do estado. Entre os objetos estavam artefatos indígenas, raspadores, machadinhas e pedaços de cerâmicas. O sítio foi encontrado pelo morador Ronildo Jerson Dias de Oliveira, numa área de mangue, entre o povoado de Abade e a comunidade de Muriá. Ele retirava areia para construção quando encontrou os vestígios e chamou o historiador do município, especialista em patrimônio cultural e geógrafo, Edionison Conceição, para acompanhá-lo até o local. O historiador Paulo Henrique dos Santos Ferreira também acompanhou Ronildo até o local do achado. “Para nós é uma alegria muito grande, pois é uma parte da pré-história que nunca foi estudada’, comemora”.

Os vestígios revelam que a região foi habitada por grupos humanos no período neolítico e podem ser do período cerâmico incipiente: 3000 – 1000 a.C. Nômades, os grupos do Período Neolítico se fixavam de maneira temporária em locais com facilidade para alimentação, perto de rios. “Os indígenas viviam em relativa fixação, realizando a horticultura de raízes. Esses grupos desenvolveram a primeira cerâmica elaborada da América, com temas geométricos e zoomórficos, pinturas em tinta branca e vermelha”, explica.

No sítio é possível obter uma larga quantidade de informações acerca de práticas, valores e estruturas dos povos que viveram na região. “Este achado mostra a pré-história  de Curuçá, que até hoje foi pouco estudada e abre possibilidade de novos estudos da região’, frisou Paulo. A partir de agora será confeccionado um documento, dando ciência ao Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico Artístico Nacional) sobre a descoberta. “De acordo com a legislação, por ser um material arqueológico, é um patrimônio da União e a competência da investigação cabe ao Iphan”, explicou Paulo Henrique.

Na foto, o geógrafo Edionison Conceição, o morador Ronildo Oliveira, que encontrou os vestígios, e o historiador Paulo Henrique

Curuçá

 

O sítio está localizado entre o povoado de Abade e a comunidade de Muriá, perto de uma área de mangue. A areia branca da área tem sido retirada por tratores para ser usada em construções. De acordo com Paulo Henrique, os tratores pertencem a empresas e a área é da União. “Muita coisa certamente se perdeu, porque os tratores reviraram muito o local, e já retiraram muita areia”, diz o professor.

O município de Curuçá pertence à Mesorregião do Nordeste paraense e à Microrregião do Salgado.

A cobertura vegetal antiga, foi removida em conseqüência dos desmatamentos, ocorridos de forma intensiva e extensiva, para o plantio de espécies agrícolas de subsistência. As Florestas de Mangue ou manguezais, ocupam as porções litorâneas e semi-litorâneas, onde existe a influência da salinidade da água do mar. A geologia do município de Curuçá apresenta-se, em grande parte, formada pelos sedimentos da Formação Barreiras de idade Terciária, principalmente constituindo as partes mais internas de seu território.

 

Cerâmica

 

Estudo realizado pelo arqueólogo Paulo Roberto do Canto Lopes demonstram evidências tecnológicas bastante antigas, o que faz das populações amazônicas as mais antigas praticantes da agricultura e da fabricação da cerâmica do novo mundo. As datações baseiam-se nas descobertas obtidas no sambaqui fluvial de Taperinha cuja datação aproximada é de 7.000 AP, comprovando a existência de grupos caçadores-coletores-pescadores que produziam cerâmica e habitavam elevações artificiais formadas pelo acúmulo de carapaça de moluscos.

O desenvolvimento de grupos humanos pré-históricos no litoral do salgado paraense relaciona-se ao movimento das sociedades ao longo do tempo, construindo conscientemente os aportes culturais necessários para sua sobrevivência, organizando suas atividades sociais, sendo que um dos ambientes utilizados pelos grupos sociais poderia ser os manguezais.

Entre sete mil e quatro mil anos atrás, quando os níveis do mar estabilizaram-se, esses sítios aumentarem freqüência, pois grupos humanos passam a explorar de forma mais intensiva os recursos aquáticos dos oceanos e zonas estuarinas, sobrevivendo de uma dieta baseada em peixes, crustáceos, moluscos e mamíferos aquáticos, complementada por coleta e caça de produtos terrestres.

Fotos: Arquivo Pessoal de Paulo do Canto, Paulo Henrique, Silvinho da Silva