Centro comercial reabre, em Belém registra baixo movimento mas grande fluxo em Ananindeua

O receio de sair e a preocupação de que novas pessoas possam contrair o novo coronavírus fizeram com que as ruas do centro comercial de Belém ainda continuassem praticamente desertas. Sem nenhuma determinação que proíba o funcionamento das lojas até o momento, poucos estabelecimentos resolveram abrir as portas na manhã de ontem, mesmo após o Sindicato do Comércio Varejista e dos Lojistas de Belém (Sindlojas) ter anunciado a volta normal das atividades.

O período difícil mudou totalmente a rotina de compras e vendas. Em anos anteriores, o que se via nas semanas que antecedem as comemorações da Páscoa e do Dia das Mães era totalmente diferente da atual realidade. As pequenas ruas que aglomeravam multidões em busca dos produtos de chocolate e presentes hoje estão quase vazias.

Nenhuma das poucas pessoas que caminhavam por lá quis se manifestar detalhadamente sobre o motivo da saída de casa e os cuidados ao fazê-la. Elas apenas diziam à reportagem que precisavam estar ali para pagar dívidas e sair para resolver outros problemas. Em meio à pandemia, há lojistas que apostam na volta do movimento durante o decorrer da semana.

É o caso da ótica onde Victoria Magalhães trabalha. Consultora de vendas há bastante tempo, ela conta que nunca viu nada igual. “Essa é uma situação muito difícil para quem vive das vendas. Eu, por exemplo, costumava fazer cerca de 20 a 30 vendas de óculos por semana, mas nos últimos três dias que funcionamos houve apenas uma.”

PRECAUÇÕES

Os cuidados com os produtos, materiais de trabalho e com o próprio cliente que raramente tem aparecido são feitos de forma redobrada. Dentro da loja, disponibilidade de álcool em gel para higienização das mãos de clientes e funcionários e limpeza constante das armações de óculos na vitrine.

Em outra loja que vende objetos para artesanato, a medida encontrada para manter a rotina de trabalho foi reduzir o horário de funcionamento e o rodízio no quadro de funcionários, além do controle da entrada do público para evitar aglomerações no interior do estabelecimento. “Ficamos sabendo do anúncio do sindicato, mas para garantir a segurança de todos, resolvemos continuar com essas medidas”,afirmou uma funcionária.

Em outro lado da cidade, no bairro da Pedreira, lojistas e ambulantes comemoravam, de certa forma, o aumento no fluxo de pessoas pelas ruas, como Carlos César, 35, que trabalha há 12 anos com vendas de mariscos nas esquinas da avenida Pedro Miranda. “De sexta-feira para cá, as pessoas começaram a aparecer. O que é bom para a gente que trabalha como ambulante”, disse.

O trabalhador informal contou ainda que percebe um cuidado redobrado de algumas pessoas que decidiram sair de casa. “Outra coisa que venho percebendo nesses dias é que algumas delas estão tomando mais cuidado ao avirem fazer as compras, usando máscaras, perguntando onde podem lavar as mãos rapidinho”, observou.

Apesar da movimentação considerável de pessoas que caminhavam pelas calçadas ao redor do mercado de carne e de hortifrúti do bairro, no lado de dentro das estruturas o cenário era diferente. Com vários boxes de venda fechados, os feirantes ainda estavam desanimados. “Não estamos vendendo quase nada. O movimento despencou aqui dentro”, reclamou Manoel dos Santos que trabalha há 50 anos como açougueiro.

O pedido que é feito pelas autoridades de saúde para que os idosos fiquem em casa não tem sido obedecido em sua totalidade. As pessoas desse público mais vulnerável ao vírus sãoas mais vistas pelas ruas.

Na tentativa de conversar com alguns senhores e senhoras que aguardavam atendimento ao lado de fora de uma agência bancária, a equipe do DIÁRIO se afastou após ouvir comentários ofensivos direcionados a atuação da imprensa, que tem feito o possível para continuar informando a população sobre a pandemia.

A Prefeitura de Ananindeua informou que, por meio de uma ação conjunta entre várias secretarias, tem atuado com os seus agentes públicos, que orientam e solicitam o fechamento de estabelecimentos que, de acordo com o decreto municipal, informa a proibição de aglomerações de pessoas em espaços privados e públicos.

GRANDE FLUXO EM ANANINDEUA

Mesmo com mais de 20 casos de Covid-19 confirmados na cidade, segundo a Secretaria de Estado de Saúde Pública (Sespa), os moradores de Ananindeua parecem seguir normalmente com sua rotina de atividades. Durante a manhã de ontem, em diversos pontos do município, foi possível observar grandes aglomerações de pessoas em meio à pandemia do novo coronavírus. Ruas, feiras, mercados e paradas de ônibus. Todos estes locais contavam com uma enorme quantidade de pessoas que dividiam o mesmo espaço, seja de máscaras ou não, sem que fosse respeitado o limite mínimo de distância.

Um destes locais, a feira da Cidade Nova 4, estava em pleno funcionamento. Fregueses seguiam em busca de frutas, verduras, peixe ou carne e em alguns pontos era possível notar aglomerações. A feirante Helena Pereira, 60, é diabética, mas declarou não ter outra alternativa a não ser trabalhar para ter renda que garanta seu sustento. “A gente pede proteção a Deus e fica se cuidando, usando máscara e luva e tem de vir. Parar de trabalhar eu não posso porque ninguém vai me dar dinheiro para ter o que comer. Se ficar em casa é pior, capaz de ficar ainda mais doente”, comentou.

Apesar da preocupação da idosa, nem todos compartilhavam do mesmo pensamento. O feirante Izaías da Silva Cruz, também de 60 anos, afirmou que o momento não é de alarde e, apesar da queda das vendas em 40%, segundo ele, existem outros problemas maiores. “Eu não estou ligando para isso (coronavírus), confio em Deus. É tanto medo por aí que isso acaba deixando os outros doentes. Tem muitas lojas fechadas e isso gera prejuízo para quem mais precisa, mas acredito que vai passar”, ressaltou.

Na parte antiga da feira, o movimento de pessoas era ainda maior, como um dia normal. A preocupação até era dividida entre quem passava pelo local, mas sem muito o que fazer, restava tentar realizar as atividades da forma mais rápida possível. Era o caso do autônomo Cleomir Ferreira Lima, 53, que saiu de casa apenas para comprar rapidamente a comida de casa, mas reclamou que o movimento de pessoas em Ananindeua continuava grande. “Não adianta 80% das pessoas ficarem em casa e os outros 20% saírem. Contamina do mesmo jeito. Você vê a situação da feira hoje, cheia de gente, eu acho que a prevenção deve ser maior. Eu vim porque precisava, mas você observa o movimento na cidade e parece que está tudo normal”, constatou.

Outra feira com grande fluxo de pessoas, apesar de estar abaixo dos dias normais, era a do Paar. O movimento em mercadinhos e outros comércios era grande, porém o local de principal aglomeração de pessoas, o canteiro central, estava com movimento abaixo do normal para uma manhã.

Já no centro de Ananindeua, perto da sede da prefeitura, para onde se olhava era possível observar muitas pessoas transitando em calçadas, comércios e feiras. Em uma farmácia próxima da prefeitura, uma enorme fila estava formada com pessoas em busca de compras e idosos querendo vacina de imunização contra a gripe. Próximo dali, uma parada de ônibus também estava com grande número de pessoas aguardando transporte. Dos mais novos até os idosos, todos juntos e misturados.

O Mercado Central de Ananindeua, localizado na rodovia BR-316, funcionava a todo vapor, com muitos clientes. A decoradora Tatiana Alencar da Costa, 35, é moradora de Marituba e falou que tanto na sua cidade quanto em Ananindeua o movimento não caiu. “Não tem isolamento nenhum. Tem gente que está levando a sério, mas outros não. Em alguns lugares deu uma leve reduzida, mas ainda tem muitas pessoas na rua. Tem muitos idosos nas ruas, os mais vulneráveis, que não estão tomando cuidado”, observou.

Usando máscara, Tatiana também afirmou que tem tomado cuidados extras para evitar o contágio pelo novo coronavírus. “Eu tenho procurado ficar a uma boa distância das pessoas e apenas tenho saído de casa para fazer compras e realizar outras tarefas. Quando volto, eu tiro a roupa e coloco logo para lavar e tomo um banho”, completou.

O professor André Ramos disse ter percebido que o movimento nas ruas da região metropolitana tem aumentado. “Desde o final de semana parece que as pessoas estão saindo mais de casa sem se resguardar e não estão levando a sério. Muitos saem sem qualquer tipo de proteção e sem isso o risco é grande para todos nós”, ressaltou.