Opinião

Belém e suas Enchentes
Todas as vezes que me reporto a Belém, não escondo que sou um provinciano. Não saberia viver longe de seus cheiros e sabores. Minha vida profissional me proporcionou inúmeras oportunidades de viver em outras plagas, mas peremptoriamente, aqui e o meu lugar.
Comentarei, tentando contribuir para o enfrentamento de nossas enchentes, que, para muitos, tornou-se um flagelo, pelo descaso dos nossos dirigentes.
É importante, antes de iniciar os comentários de forma específica, dizer que, 40% do território do município fica abaixo da cota 4, logo, sujeita à inundação. Bastando uma maré alta, acima de 3 metros, acompanhada de chuva forte e constante, Belém inunda e, vulgarmente, afunda. Nossa capital é a de cota mais baixa dentre todas as capitais do Brasil.
Com respaldo no conhecimento acadêmico, me reporto às últimas enchentes neste mês de março. Tive acesso a um mapa, disponibilizado pelo Pesquisador David Lopes, mostrando uma convergência de chuvas fortes e constantes que ocorreria a partir do dia 06 de março, baseado nos dados de satélite do INPE. O que realmente aconteceu nesse período: Choveu 120 mm em 24 horas, acompanhada de uma maré de 3,10 metros, e nos dias subsequentes as marés poderiam atingir até 3,70 metros. No dia 07, a cidade sucumbiu às nossas águas. Fato que não pode nos surpreender, já que vivemos em Belém/Pará/Amazônia/Brasil e somos o mundo das águas.
Neste ano, teremos eleições municipais. Precisamos nos moldar com a lembrança de bons prefeitos, como Nélio Lobato e Ajax de Oliveira, ambos da década de 70, sempre atentos no amanhã. De lá para cá, nossos prefeitos passaram a pensar somente no hoje, ignorando o amanhã. Lembro que a Eccir tinha várias obras com a Prefeitura e a recomendação do nosso presidente, Manoel Ibiapina Cavaleiro de Macedo, era para que as máquinas estivessem funcionando às 6 horas da manhã, com o engenheiro à frente do serviço; os prefeitos citados visitavam todas as obras, entre 6 e 7 horas da manhã, e cobravam religiosamente o andamento dos serviços.
Ainda na seção recordação, a Eccir construiu o conjunto Promorar; a maior obra já realizada em Belém, no aterro de nossas baixadas. Ressalvo que as grandes obras no Estado do Pará eram executadas por empresas regionais, pelas suas expertises; hoje, muita coisa mudou.
O que era a obra Promorar: Um aterro em mais de 50 ha, num ponto central de Belém de cota zero. O aterro tinha 3,90 m de altura, plano, e ao lado ficava a área do conjunto Providência. Logo nos deparamos com um problema: nossas águas. Reunimos 06 engenheiros, todos aqui nascidos e criados (Eu e o Ronan, pela Eccir; o Nelson Chaves, na época, Diretor Regional do DNOS; o Cativo, o Eduardo e mais outro engenheiro, que peço desculpas por não lembrar o nome, todos do quadro técnico do órgão). Decidimos construir um canal, porém, partimos da premissa de que a calha do canal deveria ser suficiente para acolher as águas, não só a do conjunto em construção, mas de todo o seu entorno. Como o local não tinha a predominância

de um córrego definido, recorremos ao melhor amigo do engenheiro, o topógrafo; com o levantamento planialtimétrico definimos o local. Como precisávamos saber a profundidade e o comportamento do lençol freático, fizemos uma sondagem muito simples e, um de nós alertou sobre a pressão que poderia fazer nas paredes do canal; daí a decisão de fazermos as paredes em gabião. Desenhamos o projeto, o especificamos; o Nelson foi ao Rio de Janeiro discutir com a equipe técnica do DNOS, dirigida pelo José Reinaldo, e do Ministério do Interior, dirigido na época pelo Ministro Mário Andreazza. Nosso projeto, feito em equipe, por muitas mãos, todas amazônidas, foi aprovado com louvor.
Isso ocorreu em 1982. Agora em 2020 (38 anos após) foi a primeira vez que se falou no Canal do Promorar; um alagamento das áreas de seu entorno, por causas ainda não determinadas. Algo não relativo ao canal de drenagem pode ter causado esse alagamento. No sentido figurado, canal de drenagem é como juiz de futebol: o bom juiz é aquele que passa despercebido quando apita o um jogo.
Enchentes sempre existirão. A eficiência de gestão entre os Prefeitos se dará quanto ao tempo do escoamento das águas; a manutenção preventiva dos canais é imprescindível. Por estarmos no mundo das águas, Belém sempre terá suas enchentes; se prevenidas e controladas, poderão se tornar o nosso maior diferencial turístico, com os cheiros e as cores da Amazônia.

Engo JOSÉ MARIA DA COSTA MENDONÇA Presidente do Centro das Indústrias do Pará – CIP

E-mail: mendonca@fiepa.org.br

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