A remissão do HIV em uma pessoa, eliminação do vírus em animais. Em 2019, houve avanços que animam médicos, pesquisadores e a população em geral rumo à esperança de um dia em que o HIV será, mais do que tratável, curável. Igualmente animadoras foram as notícias indicando a diminuição de novos casos de aids e a maior expectativa de vida para os infectados. Até a (grande) possibilidade de uma vacina, a ser em breve testada em humanos, surgiu em um ano tão importante para o combate à doença em nível global.

Mesmo se não descobríssemos mais nada, já temos armas suficientes para fazer com que a aids não seja mais uma epidemia — resume o infectologista Eduardo Sprinz, chefe do serviço de infectologia do Hospital de Clínicas de Porto Alegre e professor de infectologia na Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).

Porém, ainda há desafios. Por exemplo: apesar de o Brasil ter conseguido evitar 2,5 mil mortes por aids entre os anos de 2014 e 2018, o Ministério da Saúdacredita que 135 mil pessoas vivem com HIV no Brasil e não sabem. O Rio Grande do Sul é o terceiro Estado brasileiro com mais casos de aids, que aparece quando a infecção pelo HIV progride e afeta o sistema imunológico.

Além disso, em alguns países, especialmente os Estados Unidos — mas também há casos no Brasil — de uma substância química usada na fabricação de produtos de limpeza o dióxido de cloro, tem sido vendida como cura a aids mesmo após proibição da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) em território nacional.

Nesta retrospectiva, confira os avanços registrados em 2019 no combate à aids e a avaliação de especialistas sobre essas conquistas.

1) Segundo caso mundial de remissão do HIV

Em março, a divulgação de que uma segunda pessoa infectada pelo vírus da aids foi curada — ou que houve remissão do vírus, como preferem alguns médicos — animou a comunidade científica. De acordo com trabalho publicado pela revista Nature, um homem identificado como “Paciente Londres”, infectado pelo HIV, recebeu em 2016 transplante de medula óssea para recuperar seu sistema imunológico após quimioterapia contra um linfoma.

Um ano depois, ele deixou de tomar remédios contra o HIV, tornando-se o segundo indivíduo a permanecer livre do vírus por tanto tempo após cessar o tratamento. O primeiro caso de cura havia ocorrido 12 anos atrás, quando o “Paciente Berlim” deixou de apresentar a doença após ser submetido a procedimento semelhante.

— O resultado mostra que a estrada que se está construindo para chegar à cura da aids vai na direção certa — afirma Eduardo Sprinz, infectologista do Hospital de Clínicas de Porto Alegre (HCPA), destacando que a cura do Paciente Berlim e a possível cura do Paciente Londres ocorreram com essa técnica por eles serem casos muito específicos, que não podem ser reproduzidos em todo portador de HIV.

Apesar de ainda haver traços do HIV no código genético dos dois pacientes, eles deixaram de apresentar sintomas associados à aids, e não precisam mais tomar os medicamentos antirretrovirais.

Contudo, esse tratamento, da forma como foi realizado, ainda é muito arriscado. Procedimento semelhantes não tiveram o mesmo êxito em outros pacientes: um infectado em Barcelona morreu após tentar o tratamento em 2014, e dois casos em Boston, nos Estados Unidos, também falharam, embora tenham usado técnicas diferentes.

2) Pesquisadores eliminam vírus de animais

Cientistas dos Estados Unidos conseguiram remover o vírus HIV do genoma de animais vivos — novidade apresentada, em julho, em um estudo que pode ter apontado um caminho inicial rumo à cura da aids. Os resultados foram animadores porque, diferente dos tratamentos que impedem a multiplicação do HIV, indicaram a possibilidade de a doença ser eliminada definitivamente. 

— O que eles fizeram? Testaram ratos humanizados (aqueles com células que se comportam como as nossas). Neles, se consegue estabelecer uma infecção crônica por HIV. Então, usaram os medicamentos (foram três antirretrovirais combinados) de forma modificada, em nanocristais, que formam pequenas partículas capazes de atingir as células do reservatório — afirma Sprinz, que também é professor de infectologia na Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).

A segunda fase de testes, segundo os autores do estudo, está sendo realizada com primatas. Caso se mostre novamente bem-sucedido, o processo poderá ser repetido em humanos.

3) Vacina será testada em humanos

Uma vacina contra o HIV considerada promissora está em fase avançada de desenvolvimento. O estudo responsável por essa novidade, chamado de Mosaico, testará a eficácia de uma vacina de quatro doses ao ano, uma a cada três meses.

A expectativa, anunciada em julho, era de que a terceira fase desse protocolo, que envolve o teste em humano, começasse até o fim de 2019. Mas Susan Buchbinder, presidente do protocolo Mosaico e diretora do Bridge HIV no Departamento de Saúde Pública de São Francisco, não confirmou que os testes tenham começado.

Com uso de engenharia genética, a vacina usa o adenovírus, parente do vírus da gripe, para estimular a resposta do sistema imunológico. A vacina contém pedacinhos do HIV, que não são capazes de deixar a pessoa com o vírus, mas, sim, de estimular as células de defesa a criar uma barreira contra o HIV no caso de um real contato com o vírus.

O estudo, conhecido como Mosaico, será conduzido em aproximadamente 55 centros clínicos em oito países, inclusive no Brasil, contando com a participação de cerca de 3,8 mil indivíduos. O objetivo será avaliar se um regime de vacina experimental pode prevenir de forma segura a aquisição de HIV entre homens que fazem sexo com homens e transexuais.

Ainda que a fase de testes clínicos esteja prestes a começar, se já não começou, os primeiros resultados são esperados apenas para 2023. Pesquisadores preveem uma taxa de proteção de 65% contra o HIV.

4) Transplante com doadora viva

Cirurgiões americanos anunciaram, em março, o primeiro transplante de rim de um doador vivo com HIV (Nina Martinez, 35 anos) para um receptor também com HIV (sua identidade foi mantida em sigilo). Antes disso, doações de órgãos entre HIV positivos só aconteciam quando o doador já estava morto.

Nina e o destinatário permanecerão com antirretroviral indefinidamente para controlar seu HIV. A resistência à medicação pode variar de pessoa para pessoa, por isso os médicos devem monitorar de perto o receptor nos meses após o órgão doador ser introduzido.

– Pessoas com HIV não podem doar sangue. Mas agora podem doar um rim. Há 30 anos, a doença era uma sentença de morte. Hoje, pacientes são tão saudáveis que podem dar vida a outra pessoa – disse Dorry Segev, professora de cirurgia da Escola de Medicina da Universidade Johns Hopkins, que liderou a equipe.

5)  Transmissão impedida por antirretrovirais

Uma pesquisa conduzida por cientistas do Reino Unido mostrou que, quando submetidos a um tratamento eficaz com antirretrovirais, homens homossexuais não transmitem o vírus da aids. No estudo apresentado em maio, realizado por oito anos com mil casais na Europa, o parceiro que tinha HIV recebia tratamento para suprimir o vírus e, mesmo fazendo sexo sem preservativo, não houve registro de casos de transmissão.

– Já havia a convicção de que o uso de retrovirais era eficiente em impedir a transmissão do vírus entre casais heterossexuais, agora surgem elementos que sugerem que esse efeito ocorre também no sexo entre homens, em que o risco de transmissão é maior – explica Eduardo Sprinz, infectologista do HCPA.

O trabalho reforça a importância dos testes de HIV frequentes, o que poderia reduzir drasticamente a transmissão do vírus no futuro. Ela indica que, caso os dados sejam revisados e comprovados em análises posteriores, se todos os portadores do HIV forem tratados com medicamentos, não haverá mais infecções por via sexual.

Para o infectologista Paulo Ernesto Gewehr Filho, do Hospital Moinhos de Vento, os dados podem ajudar a reduzir o isolamento social dos portadores do vírus da aids, uma vez que muitas pessoas da família ou do trabalho ainda têm medo de serem contaminadas em situações do convívio diário, ainda que esteja comprovado elas não transmitem o HIV.

6) Redução de mortes, maior expectativa de vida

Ao celebrar, em abril, que a expectativa de vida no mundo aumentou 5,5 anos entre 2000 e 2016, a Organização Mundial da Saúde (OMS) alertou que os primeiros 16 anos do século registraram grande queda nas mortes de crianças menores de cinco anos, especialmente na África subsaariana, onde houve progressos na luta contra a malária, o sarampo e outras doenças contagiosas. As estatísticas melhoraram também graças aos avanços contra o HIV/aids, que causou estragos na maior parte da África nos anos 1990.

No Brasil, que oferece acesso universal ao tratamento não só de aids, mas também HIV, o Ministério da Saúde comemorou a redução nos casos e na mortandade. Foram evitados quase 12 mil registros de aids entre 2014 e 2018, e houve queda de mortalidade em 22,8% no período de cinco anos: de 12.575 em 2014 para 10.980 em 2018.

O tempo de sobrevida de pacientes com HIV mais do que dobrou após o Brasil começar a adotar políticas públicas de combate à doença. Estudo divulgado em maio pelo ministério mostrou que 70% dos pacientes adultos e 87% das crianças diagnosticadas entre 2003 e 2007 tiveram sobrevida superior a 12 anos. Em 1996, antes de o governo ofertar o tratamento universal, a sobrevida era de cinco anos.

imagem Agencia Aids

Dúvidas Gerais

HIV é a mesma coisa que aids? Não. HIV é o vírus, aids é a síndrome da imunodeficiência adquirida, uma condição de saúde na qual a pessoa não se medica e, por isso, seu sistema imunológico fica fraco, e o indivíduo, vulnerável a doenças. Uma pessoa com HIV não necessariamente é doente – pode, muito pelo contrário, ser saudável. Para viver por muitos anos, é preciso tomar remédios diariamente – e, se isso ocorre, a pessoa fica com a carga viral muito baixa e não transmite o vírus.

O que é ser indetectável? Ter baixas cópias do vírus HIV a ponto de o teste de laboratório nem detectar a presença dele no sangue.

Como saber que a pessoa está indetectável? É preciso realizar teste de sangue no laboratório.

O vírus não é transmitido quando a pessoa é indetectável? A lógica do HIV é: quanto mais vírus uma pessoa tem, maiores as chances de ela passá-lo a alguém. O antirretroviral diminui a quantidade do HIV no corpo do indivíduo. Quando a carga viral é tão baixa a ponto de testes de laboratório não detectarem a presença no sangue, a pessoa soronegativa não pega o vírus.

Como funciona o antirretroviral? O HIV é um vírus que, uma vez no sangue do indivíduo, vive por cerca de duas horas. Por isso, precisa se multiplicar, invadindo outras células. O antirretroviral impede que o HIV se multiplique.

Mosquito passa HIV? Não. Nem compartilhar talheres, equipamentos da academia, beijar ou sentar no mesmo vaso sanitário.

Como se proteger do HIV? Além da camisinha, há um remédio: Profilaxia Pré-Exposição (PrEP), uma pílula azul que contém dois antirretrovirais, tomados por quem não tem HIV. Disponibilizado no Sistema Único de Saúde (SUS) brasileiro desde o ano passado. Também está presente em países como Estados Unidos, França, Inglaterra e Canadá.