ALFREDO OLIVEIRA, O PRÊMIO NOBRE DA LITERATURA PARAENSE

foto de ronaldo andrade09- lançamento Flipa-2014Ele começou a escrever por sentir necessidade de colocar seus pensamentos no papel. Porém, a medicina pública foi seu ofício por 35 anos, e a luta pela sobrevivência profissional impossibilitou continuar escrevendo. Desde cedo Alfredo Oliveira percebeu não ter vocação para ficção, adotando o gênero memorialista em suas obras. Tem orgulho em dizer que teve uma infância nas beiras de rio pelo interior do Pará, devido a profissão do pai, à época funcionário do ministério da fazenda. Seu 11° livro publicado é Cabanos & camaradas (2010) e, assegura que depois que se aposentou, em 1992, o ritmo da escrita vem sendo intensificada. Entre suas publicações: biografias de Ruy Barata e Almir Gabriel e o livro Paranatinga, este último se tornou leitura obrigatória dos vestibulares da UFPA por um longo período. Também compositor, teve algumas de suas músicas interpretadas por Jane Duboc, Fafá de Belém, Nilson Chaves e Neguinho da Beija-Flor.

Como médico da previdência social, sentiu que poderia fazer mais tomando uma posição diferente e buscando benefícios à prática médica. Foi delegado do Sindicato dos Médicos e presidente do Conselho Regional de Medicina do Pará. Para ele, não melhorou muita coisa por ser uma luta estrutural. Sobre o exercício da medicina pública ele diz: “Eu jamais considerei a possibilidade de vender serviço médico”. Afirma não ver problema, mas para a sua formação política seria contraditório.

O memorialismo marca a literatura de Alfredo, associado a informações regionais e pesquisas históricas. De formação socialista e militante do PCB (Partido Comunista Brasileiro), tinha como conhecidos de militância Dalcídio Jurandir e Benedito Monteiro. Após o golpe de estado em 1964 a militância acabou, e necessitava continuar expressando seus pensamentos, neste momento sua primeira obra começa a surgir. O médico considera três grandes amigos incentivadores no inicio de sua carreira, o editor George, Ruy Barata e Raimundo Jinkings.

Ele terminou o primeiro livro O touro passa?, em 1975, e publicou mais tarde, em 1981. E ainda diz que o período entre a escrita e a publicação desta obra foi uma grande vantagem, por ter a maturidade suficiente para avaliar melhor seu próprio trabalho. O livro traz memórias da sua infância como a Segunda Guerra Mundial e as lutas entre os pró e contra o Governador Magalhães Barata. Uma curiosidade, um amigo de Alfredo mostrou o copião da obra a Benedito Nunes, que ficou entusiasmado e se ofereceu para escrever o prefácio. Recentemente o livro foi reeditado através do projeto “Orgulho de ser do Pará” da empresa de comunicação RBA.

“Eu nunca consegui olhar para a literatura como se fosse um hobbie, não. Para mim a literatura é uma parte da minha personalidade”.

PRÊMIO NOBRE DE LITERATURA

Sem a intenção de ser protagonista do texto, Alfredo Oliveira conclui que escreve como testemunha dos acontecimentos a sua volta. Contudo, alvo de homenagem durante a I Feira Literária do Pará (FliPA), ganhou o Prêmio Nobre de Literatura em 2014 e completa “foi uma coisa maravilhosa, veio na hora, para mim não poderia ter sido melhor, foi um prêmio que me deu muita satisfação e a oportunidade de reeditar meu segundo livro”. O prêmio é oferecido pela editora Empíreo junto a livraria da FOX Belém, organizadores do evento, proporcionando a reedição da obra Belém, Belém na FliPA 2015.

O livro Belém, Belém traz memórias da época do ginásio (atual ensino médio). Durante a entrevista, Alfredo relembra das lutas do povo contra o estado novo e a entrada do Brasil na Segunda Guerra Mundial e diz que estes acontecimentos fazem parte do livro. Além de estudos considerados pioneiros sobre Bruno de Menezes, Jacques Flores e Rodrigues Pinagé. Sobre este último o escritor conta mais uma curiosidade, Pinagé foi o primeiro a ser eleito Príncipe dos Poetas pela Academia Paraense de Letras mas tinha um outro lado. A poesia satírica também estava entre as suas produções, coisa que o moralismo da época não permitia publicar, “eram versinhos geniais” completa Alfredo. Material, conseguido através de Benedito Nunes e Cláudio de Moraes Rego, exclusivo incluído no texto do livro.

“É o único registro escrito da poesia satírica do Pinagé”.

O LEITOR

Quando perguntado sobre o que espera do leitor atual, o escritor se mostra preocupado e assegura que são vários os fatores que o fazem acreditar que o livro não seja fonte principal de busca hoje. “O leitor paraense precisa ser incentivado a ler”, diz, e acrescenta que a organização da televisão oferecendo produtos massificados, sem a preocupação com a qualidade, também deve ser levado em consideração quando se fala de formação do leitor. Para ele, o acesso ao livro esbarra no fato da quantidade reduzida de livrarias públicas, e sobre a aquisição de novos volumes são poucas as livrarias que resistem ao mundo corporativista cedendo espaço a cultura regional.

Camila Andrade
Fonte: Fiepa