A história da humanidade contada através da maior árvore genealógica do mundo

E se uma árvore genealógica gigante refletisse a história da humanidade? Foi isso que cientistas dos Estados Unidos e de Israel quiseram fazer. Usaram os dados de 86 milhões de perfis públicos de uma rede social de genealogia. Depois, construíram várias árvores genealógicas com esses dados: a maior é composta por 13 milhões de pessoas, sobretudo da América do Norte e da Europa, e atravessa 11 gerações. Essas árvores genealógicas apresentadas recentemente e na Science, dão-nos uma nova visão do casamento, das migrações e da longevidade no mundo ocidental nos últimos 500 anos.

Os 86 milhões de perfis públicos usados neste trabalho pertencem ao site Geni.com. Aqui os utilizadores criam um perfil individual e vão atualizando a sua árvore genealógica. “O website analisa automaticamente os perfis para detectar semelhanças e oferece a opção de combinar os perfis quando uma correspondência é detectada”, lê-se no artigo científico. O grande objetivo é construir uma árvore genealógica mundial online. Este site pertence à plataforma de genealogia MyHeritage, onde também se reconstituem as histórias familiares. O bioinformático Tal Shor, dessa empresa, é um dos autores deste trabalho na Science.

Para construir as árvores genealógicas, a equipa de cientistas coordenada por Yaniv Erlich, do Centro do Genoma de Nova Iorque (Estados Unidos) e também da MyHeritage, usou informação demográfica de elevada qualidade, como datas de nascimento e de morte. “Os dados refletiam acontecimentos históricos e tendências, como taxas elevadas de mortalidade em alturas de guerra, como na Guerra Civil Americana e na Primeira e Segunda Guerra Mundial, assim como uma redução na mortalidade infantil durante o século XX”, refere-se no artigo. Também obtiveram localizações geográficas dos perfis. Percebeu-se que a maioria desses perfis pertencia ao mundo ocidental: 55% da Europa e 30% da América do Norte.  

Para evitar enviesamentos nos resultados, os cientistas fizeram comparações com outras bases de dados, estudos genéticos tradicionais ou analisaram cerca de 80 mil certidões de óbito entre 1985 e 2010 do Departamento de Saúde do Vermont (EUA). Esses registos tinham informações como o nível de escolaridade, o local de nascimento e a causa de morte dos indivíduos. “Havia certidões de óbito para cerca de mil indivíduos que estavam no Geni.com”, lê-se no artigo. Fizeram-se então várias comparações entre os dados no site e as certidões de óbito e concluiu-se que tinham um elevado nível de concordância.

Através de uma teoria matemática (teoria dos grafos), construíram-se então várias árvores genealógicas, nomeadamente uma com 13 milhões de pessoas ligadas por casamentos ou com algum grau de parentesco. Esta é já considerada a primeira árvore genealógica “tão ampla e cientificamente avaliada”, segundo Yaniv Erlich.

E que conclusões se retiraram do estudo? “As principais conclusões foram: podemos recolher árvores genealógicas com elevada qualidade por contribuição coletiva do trabalho de muitos genealogistas e que os genes afetam menos a longevidade que aquilo que pensávamos antes”, diz ao PÚBLICO o cientista.

O que nos dizem exatamente estas árvores genealógicas sobre a longevidade? Para ver isso, os cientistas construíram um modelo e uma base de dados com três milhões de parentes nascidos entre 1600 e 1910 e que viveram mais de 30 anos. Excluíram gémeos, indivíduos que morreram na Guerra Civil Americana, na Primeira e Segunda Guerra Mundial ou por desastre natural. Depois, compararam a duração de vida de cada pessoa com o dos seus parentes, assim como o grau de separação entre eles. Descobriu-se que os genes estão relacionados em cerca de 16% com a longevidade dos indivíduos, enquanto antes se pensava que fosse entre 15 e 30%.

“Os resultados indicam que ter uns bons genes de longevidade pode estender a vida de alguém cerca de cinco anos”, diz Yaniv Erlich num comunicado sobre o trabalho. “Não é muito. Estudos anteriores mostraram que fumar tira dez anos de vida. Isto significa que algumas escolhas na vida podem importar mais do que a genética”.

Mulheres migraram mais

Também se seguiram as deslocações dos indivíduos nas árvores genealógicas e concluiu-se que, nos últimos 300 anos, as mulheres na Europa e na América do Norte migraram mais do que os homens. Contudo, quando os homens se deslocaram, percorreram, em média, distâncias maiores.

Quanto aos casamentos, os cientistas estimaram que antes da revolução industrial (cerca de 1750) a maioria dos norte-americanos encontrava um parceiro num raio de dez quilómetros a partir do local onde tinha nascido. Já os indivíduos nascidos depois de 1950 encontravam o seu parceiro num raio de cerca de 100 quilómetros. “Tornou-se mais difícil encontrar o amor da nossa vida”, brinca Yaniv Erlich no comunicado. Além disso, antes de 1850, casar com um familiar próximo era comum: em média, realizavam-se casamentos com primos em quarto grau.

Houve ainda uma descoberta peculiar relativamente aos casais que nasceram entre 1800 e 1850: a distância entre as pessoas que nasceram em 1800 era de oito quilómetros, enquanto em 1850 era de 19 quilómetros. O motivo até podia ser o surgimento (e expansão) dos transportes no início da era industrial, mas esta fase coincide com um aumento da afinidade genética entre os elementos de um casal. Ou seja, apesar de distância ser maior, havia mais casamentos entre familiares próximos. Desde então houve mudanças: “Os nossos resultados sugerem que mudanças culturais tiveram um papel mais importante na redução recente da afinidade genética dos casais nas sociedades ocidentais [do que o desenvolvimento dos transportes]”, lê-se no artigo.

Os cientistas avisam ainda que a base de dados criada por este trabalho está disponível no site FamiLinx.org e que pode ser usada para outras investigações científicas. Já agora, e este é um aviso para todos, se ainda não tem ou faz parte numa árvore genealógica online pode criar um perfil no Geni.com (ou noutro sitesemelhante). Talvez, um dia, venha a fazer parte de uma árvore genealógica mundial gigante.

Genes 

Ao analisarem uma seleção de três milhões de registros de pessoas nascidas entre 1600 e 1910, os pesquisadores chegaram à conclusão de que os genes desempenham um papel relativamente pequeno na longevidade das pessoas.

Uma comparação entre famílias demonstrou que em apenas 16% dos casos os genes estariam associados a uma vida mais longa. Até então supunha-se que isso ocorresse em 30% dos casos.

Em média, “genes bons” podem prolongar a vida em cinco anos. “Não é muita coisa”, disse Yaniv Erlich, coautor do estudo. “Outras pesquisas demonstram que o tabagismo pode reduzir a vida de uma pessoa em até dez anos, o que significa que as escolhas que fazemos são mais importantes do que os genes.”