6ª Semana dos Povos Indígenas

Índios em São Félix do Xingu discutem direitos e o papel da mulher

Entoando cantos, em danças cadenciadas, com a pele pintada e os corpos cobertos com vestimentas típicas, feitas de miçangas, penas de animais e sementes de frutos, exibiam a exuberante força, que vem do coração, prontos para mais uma Semana dos Povos Indígenas. O maior evento do gênero no Estado começou com a chegada das cerca de 70 embarcações que se encontraram no cruzamento dos rios Xingu e Fresco, na orla da cidade de São Félix do Xingu, sudeste do Pará. É nesse ponto, sob a vista de centenas de pessoas, que os índios das 21 aldeias do município se unem em um congraçamento para celebrar a cultura e provocar debates em torno de direitos que querem conquistar.

A abertura oficial da Semana dos Povos Indígenas foi com apresentações culturais, exposição de artesanatos e show da cantora Maria Gadu.

12 etnias participam do encontro, cujo tema, este ano, é o empoderamento da mulher feminina. Para adensar o debate, foi convidada Sônia Guajajara, uma das mais importantes líderes indígenas da atualidade, que deu o recado na noite durante reunião com caciques na Câmara Municipal. “Precisamos discutir a representatividade da mulher indígena entre nós, nas aldeias, mas também na sociedade brasileira. Unidos somos mais fortes para lutar por direitos, entre eles a reconquista de territórios que foram sendo perdidos ao longo dos anos”. A Câmara Municipal estava lotada, com a presença de caciques, estudantes e autoridades, Sônia Guajajara, Puyr Tembé, gerente de Promoção e Proteção dos Direitos dos Povos Indígenas da Secretaria de Estado de Justiça e Direitos Humanos (Sejudh). Nessa reunião foi o momento em que os caciques discutiram a programação, expõem anseios, deram sugestões e receberam os kits esportivos que serão usados durante os jogos. Lá também foram repassadas orientações e informes sobre o esquema de segurança, as ações sociais e a dinâmica dos encontros –logo depois da chegada das tribos. “Estamos aqui para definir com eles como será a semana. O objetivo é assegurar o clima de harmonia e garantir que eles tenham acesso a todos os serviços que estarão disponíveis”, explicou a organizadora do evento, Viviane Cunha. “Este ano damos boas-vindas aos Juruna, que pela primeira vez participam da semana conosco”, completou.

Durante a reunião da prefeitura junto com o presidente da Assembleia Legislativa, deputado Márcio Miranda (DEM), a FEPIPA, cobrou que seja criada o conselho estadual de política indigenista , bem como um apoio logística para que os mesmos pudessem ir até Brasília participar do maior acampamento nacional dos povos indígenas do Brasil ATL… onde será discutido Sobre a Luta dos diretos dos povos indígenas, bem como : Demarcação das terras indígenas; Saúde indígena; proteção ambiental; criminalização das lideranças indígenas; empoderamento das mulheres indígenas e o impacto dos grandes projeto na área da mineração e hidrelétrica…

Ansiedade

Um dos momentos mais aguardados da semana era a chegada dos convidados especiais pelo rio. Assim que descem das embarcações, os indígenas foram recebidos por autoridades locais e do Estado.

Enquanto a maioria chegou pelo rio, outros pegam a estrada. É o caso dos primos Fetxa e Thaysaka Fulni-ô, de Pernambuco. Depois de passar por três estados, em uma viagem de oito dias, chegaram ao Pará, que ainda não conheciam. A expectativa para integrar os festejos, fazer coro nas discussões e expor o belo artesanato é grande. “Viemos representar nosso povo a convite de um irmão Kayapó aqui da cidade. Queremos mostrar nossa cultura e levar para nossa aldeia o conhecimento que adquirirmos aqui”, afirma Thaysaka. Os Fulni-ô, ele conta, ainda mantêm preservados costumes e o idioma próprios.

Esporte

 Na segunda-feira começaram as competições. Além do atletismo, com a corrida de 100 metros rasos para homens e mulheres, houve partidas de futsal feminino e de cabo de guerra masculino e feminino. Espalhados por diversos espaços da cidade, os jogos são uma atração muito esperada, tanto pelos índios quanto pelo público que prestigia as disputas. Com apoio da Secretaria de Estado de Esporte e Lazer (Seel), cada modalidade é acompanhada de perto por plateias apaixonadas e orgulhosas.

Apoteose

 À noite, a Semana dos Povos Indígenas ofereceu outro momento memorável: a entrada das etnias participantes na Praça do Triângulo durante a abertura oficial. A força da cultura podia ser vista em cada tribo que pisava na quadra principal, entoando cânticos, dançando e encenando situações cotidianas vividas nas aldeias. Com as vestimentas tradicionais, corpos pintados e concentração, os índios marcavam presença e arrancavam aplausos a cada apresentação. Crianças indígenas que estudam em escolas do município também se apresentaram para o público presente.

No palanque, a prefeita de São Félix do Xingu, Minervina Silva, dava as boas-vindas e declarava oficialmente aberta a semana. “Temos a honra de receber no nosso município grandes nomes da luta indígena, como Puyr Tembé e Sônia Guajajara. Esta última, em especial, veio abrilhantar ainda mais essa festa. Esperamos que todos possam aproveitar esses dias de congraçamento, discussões e oferta de serviços essenciais trazidos pela equipe do governo do Estado”, assinalou.

Acompanhando Sônia Guajajara em agendas pelo País, a cantora Maria Gadu encerrou a noite com um pocket show que animou o público. “É uma honra estar aqui, sobretudo porque o Brasil vive um momento crucial da sua história, em que a luta dos movimentos sociais se tornou ainda mais fundamental. São Félix do Xingu, sem dúvida, cria um marco ao promover um encontro de tamanha beleza e representatividade”, disse a artista.

Arco e flecha 

A competição de arco e flecha, foi no Estádio Municipal Turcão, no centro de São Félix do Xingu, município do sudeste do Pará.

O vencedor do arco e flecha, um dos símbolos da cultura indígena, foi Jakakmãkroro Kayapó, 70 anos, que acertou o alvo no centro, fazendo 100 pontos de uma só vez – marca que nenhum outro índio bateu. Segundo ele, a precisão na mira é resultado da prática de uma vida inteira. “O arco e flecha é uma das nossas maiores tradições, uma das partes mais fortes da nossa cultura, um ícone que nos representa. É uma prática que começa bem cedo, quando a criança ainda é bebê. Aprendemos logo porque é uma questão de sobrevivência. Vivemos daquilo que caçamos na mata”, contou o campeão da prova, que saiu dançando ao final da competição. “É uma dança de agradecimento e orgulho por ser Kayapó”, ressaltou.

Índios vão às ruas na luta por direitos

Os índios se concentraram em frente à Secretaria Municipal de Cultura, entoando cantos de guerra e dançando na luta por direitos, pela retomada de territórios e a gestão ambiental dessas áreas. Durante a passeata, caciques se revezavam proferindo palavras de ordem, enquanto todos seguiam em cadência rumo à Praça do Triângulo, onde ocorre grande parte das atividades.

“Índio sem território está fadado ao extermínio. Sem terra, não temos educação, saúde e cultura. disse Puyr.

As mulheres, ocupavam agora uma posição de destaque, com os discursos mais inflamados na língua materna. Apenas poucos privilegiados compreendem o que dizem, embora não seja difícil imaginar.

A mulher indígena vem conquistando cada vez mais espaços, dentro e fora das aldeias. Não é à toa que escolhemos discutir este ano o empoderamento feminino, observou a organizadora da Semana dos Povos Indígenas, Viviane Cunha.

O vice-governador Zequinha Marinho, compareceu ao evento. Na praça principal, ele visitou tendas das aldeias participantes, conferiu o artesanato em exposição e conversou com índios, entre eles os Juruna, que pela primeira vez participam da Semana dos Povos Indígenas. “A presença do Estado neste evento mostra o cuidado e a proteção aos direitos dessa população por parte do governo. Há uma equipe de servidores de diversas áreas aqui, que estão dando o melhor de si para prestar o melhor atendimento, seja na área social, seja na saúde ou na cultura”, asseverou.

Serviços

As equipes do Estado prestaram os mais diversos serviços aos índios e à comunidade em São Félix do Xingu: Defensoria Pública, Pro Paz, secretarias de Assistência Social, Trabalho, Emprego e Renda (Seaster), de Saúde Pública (Sespa), de Turismo (Setur), de Esporte e Lazer (Seel), de Justiça e Direitos Humanos (Sejudh) e de Comunicação (Secom), polícias Civil e Militar, Corpo de Bombeiros se uniram para levar ações diversas, como emissão de documentos, atendimentos de saúde, ações de segurança, oficinas de arte e cultura e orientações jurídicas. Foram mais de 60 servidores do Estado presentes na força-tarefa. Entre os cursos ofertados: texto, fotografia e audiovisual, ministrados por monitoras do projeto Biizu, da Secom.

A ação da Fundação Pro Paz, na Creche Municipal Luiz Ferreira Santana, próximo à Câmara municipal e atendeu também a comunidade não indígena do município com a emissão de documentos diversos, calculando chegar até sete mil atendimentos, entre RG, CPF, certidão de nascimento, foto 3×4 e a realização do aconselhamento jurídico”, explicou o coordenador do Pro Paz Cidadania, Roberto Oliveira.

A Fundação Cultural do Pará (FCP), por sua vez, contribuiu com oficinas em diversas áreas. Uma equipe de instrutores da FCP desenvolveu um laboratório com atividades de serigrafia, grafismo, desenho e estampa. Com a intenção de promover a criação, expressão e representação da cultura de cerca de cinco mil indígenas, de dez etnias diferentes, participantes da Semana.

Encerramento com legado de tolerância e respeito

A Semana dos Povos encerrou com um grande e emocionante congraçamento de tribos e etnias, com a caminhada pelas principais ruas de São Félix, na luta por direitos dos povos indígenas, debate sobre a gestão de território, disputas de futebol, vôlei, cabo de guerra e arco e flecha, e o concurso que elegeu a beleza das aldeias – além da apresentação de danças e cantos tradicionais na Praça do Triângulo. No último dia, com a programação livre, os índios aproveitaram para circular pela cidade. Depois de ganhar algum dinheiro vendendo artesanato – as belas e coloridas peças, entre brincos, pulseiras, colares e adereços para a cabeça –, eles foram ao comércio e compraram roupas e outros utensílios, movimentando a economia local. É hora de dizer até logo aos irmãos. A caminhada segue com força, beleza e resistência.

FOTOS:  Rodolfo Oliveira/ Ag. Pará