'Tenso como um parto': brasileiros contam como foi a passagem do furacão Irma pela Flórida

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Ao acordar nesta segunda-feira e se deparar com um dia bonito e ensolarado, a professora brasileira Fernanda Cima, de 37 anos, não parecia estar no mesmo lugar onde apenas algumas horas antes havia vivido momentos de apreensão com sua família, sob a chuva torrencial e os ventos fortes trazidos pela chegada do furacão Irma à Flórida.

Há um ano e meio morando em um condomínio de Weston, nos arredores de Miami, ela preferiu ficar em casa e se preparar para enfrentar o ciclone tropical, em vez de deixar a região, como fizeram muitos de seus vizinhos.

Não foi uma decisão fácil. Ela e o marido têm três filhos pequenos, mas se convenceram de que sua casa, preparada para enfrentar situações assim, seria um local seguro durante a tempestade. “O domingo foi um dia tenso como um parto. A chuva ia e voltava, como as contrações, até atingir o auge”, diz Fernanda.

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“Tentamos manter a tranquilidade e entreter as crianças para que permanecessem calmas.”

O momento mais crítico foi no meio da tarde, quando, olhando pela brecha de uma das placas de aço que cobriam as janelas e portas, pensava que a tempestade pioraria ainda mais. “Mas, graças a Deus, melhorou a partir dali. O pior é essa tensão por não saber o que vai acontecer e ter de ficar acompanhando o progresso do furacão”, diz.

“Isso deixou as pessoas nos grupos de WhatsApp um pouco apavoradas. Teve momentos em que precisei me desligar um pouco e racionalizar que ainda estava tudo sob controle.”

O furacão Irma foi o mais forte registrado na Flórida na última década e atingiu o Estado no domingo como um furacão de categoria 4, depois de causar destruição como um ciclone tropical de categoria 5 no Caribe, onde deixou ao menos 37 mortos.

Ao chegar aos Estados Unidos, continuou a perder força ao subir pela costa oeste do Estado e foi rebaixado para tempestade tropical. Ainda assim, as regiões metropolitanas de Miami e de outras cidades da região tiveram inundações e pelo menos quatro mortos, além de outros prejuízos.

Seis milhões de residências – 62% do Estado – ficaram sem energia, enquanto, nas ilhas de Florida Keys, região mais ao sul, autoridades alertaram para uma “crise humanitária”.

Fernanda diz que, a não ser por galhos de árvores caídos e alguns momentos sem luz, sua família não sofreu grandes danos. Mas conta que ladrões se aproveitaram do fato de que os portões de seu condomínio foram mantidos abertos e várias casas estavam vazias para roubar alguns de seus vizinhos.

“O ser humano pode ser horrível e se aproveitar de uma oportunidade mesmo em uma situação assim”, diz.

Ansiedade

A jornalista Patrícia Maldonado, de 42 anos, conta ter passado uma semana sob o dilema de ficar ou partir. O Irma poderia – ou não – passar por Windermere, cidade próxima a Orlando, onde a brasileira mora há dois anos e meio com o marido e as duas filhas.

“As coisas mudavam o tempo todo. Numa hora, diziam que ia passar aqui. Noutra, diziam que não”, conta ela.

“Uns amigos decidiram fugir. Outros optaram permanecer. Não tinha nem como seguir o senso comum coletivo.”

Quando os prognósticos pioraram, eles decidiram ficar na região, mas sair de casa e se abrigar em um local mais seguro. Foram para um hotel da rede Disney, que havia decidido aceitar animais de estimação – a família tem duas cadelas.

“Só iríamos aonde elas pudessem ir com a gente. Você convive há anos com um animal e, nessa hora, vai deixá-lo para trás? Não tinha como. E viajar de avião seria complicado, porque não é toda companhia que aceita um cachorro de 50 kg.”

Eles conseguiram uma reserva em um quarto, mas o estabelecimento também abrigou pessoas que não tinham para onde ir – elas dormiram na área da recepção.

Após a tempestade passar, Patrícia falava com a reportagem enquanto fazia o check-out do hotel nesta segunda-feira, ainda sem ter notícias de casa.

“A ansiedade é grande, porque todo mundo da minha rua saiu de casa, então não temos como saber se vai ter luz, se o nosso telhado ainda vai estar lá…”

‘Tarde demais’

Assim como Fernanda e Patrícia, a executiva Marília Maya, de 52 anos, também demorou a tomar uma decisão. Ela e sua família haviam se preparado no ano passado para a chegada do furacão Matthew, que acabou desviando de última hora.

Desta vez, o casal chegou a acordar na madrugada de sexta-feira para preparar tudo para partir com o filho, além do gato e do cachorro da família. Estavam ainda com uma amiga e seus dois filhos, que haviam buscado abrigo em sua casa em South Miami. Mas, já com tudo pronto, mudaram de ideia no último minuto.

“Era tarde demais. Íamos ficar parados na estrada. Foi a melhor decisão.”

A família garantiu que a casa estava bem protegida e decidiu manter todos reunidos em um dos quartos durante a tempestade, por ser o mais protegido da chuva e do vento.

“Tivemos muita sorte, porque o Irma desviou e pegamos só o que eles chamam de ‘sujeira’ do furacão”, conta Marília.

“Mas, de qualquer forma, você fica tenso, com medo de a água não parar de cair e inundar sua casa.”

Ela diz que a experiência foi um “susto” e serviu como “aprendizado”. “Pela primeira vez nos quatro anos em que vivemos aqui estivemos perto de uma catástrofe em potencial”, diz.

“Na próxima, não vou pensar muito. Fecho minha casa e pego o primeiro voo para bem longe.”

‘Fomos poupados’

Já a brasileira Daniela Seabra Oliveira começou a se preparar com dias de antecedência para o pior. Ela e o marido Márcio estocaram comida e abasteceram os carros caso precisassem sair às pressas com a filha Brooke, de 8 anos, e o pastor alemão Wagner, o quarto integrante da família.

Também deixaram os equipamentos eletrônicos carregados e escolheram cômodos sem janela para dormir enquanto o Irma passasse por Gainesville, localidade do centro-norte da Flórida onde a família mora há quatro anos.

“Tinha receio de os vidros quebrarem e machucarem a gente”, conta Daniela, que é professora da Universidade da Flórida.

Ela e o marido chegaram à conclusão que fugir não era uma boa opção. “Se saíssemos, teríamos de enfrentar uma estrada que mais se parecia com um estacionamento. Uma viagem a Atlanta, que demora cinco horas, estava levando 12 horas. Depois do furacão, todo mundo vai querer voltar na mesma hora. Além disso, a gasolina poderia acabar na estrada”, diz.

“Estávamos calmos, mas monitorando, pois um furacão como Irma não se via havia vários anos.”

Por sorte, a cidade acabou sendo pouco afetada pela tempestade, que atingiu a região na madrugada de segunda-feira. A professora e sua família ficaram sem acesso à internet, e a energia de algumas áreas da região foi cortada. A previsão é que a vida só volte ao normal no meio desta semana.

Agora, predomina o sentimento era de alívio: “Quando acordamos, o pior já tinha passado. Gainesville foi poupada”.

BBC Brasil – Primeira página

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