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Imagine a seguinte situação. Você vai participar como voluntário/a numa experiência de psicologia. A tarefa que tem pela frente parece trivial: tem de permanecer sentado/a numa salinha de paredes nuas, durante 15 minutos, consigo próprio por única companhia. Não pode levar consigo celulares, televisores, computadores, jornais, revistas, nem papel e lápis para se entreter ou distrair. E também não pode adormecer. Tudo o que pode fazer é olhar para as paredes e… pensar.

É-lhe contudo permitido fazer uma coisa durante esse período de ócio – mas só se e quando lhe apetecer: carregando num botão, pode infligir a si próprio/a um ligeiro choque elétrico, equivalente àquelas descargas de eletricidade estática que por vezes se apanham ao mexer num objeto metálico.

Antes de iniciar a experiência, os participantes tiveram a oportunidade de sentir na pele o desconforto produzido pelo choque – e a maioria declarou-se disposto/a a pagar para evitar receber um novo choque desses.

A reação tem lógica: quem não acharia irracional o desejo de sentir outra vez algo de tão desagradável quando a tarefa que tem pela frente parece tão, mas tão inócua, em comparação? Desengane-se.

O mais provável é que, tal como a maioria dos outros participantes que juraram não querer repetir a experiência do choque elétrico, antes de emergir da salinha, um quarto de hora mais tarde, você tenha carregado no fatídico botão… e talvez até mais do que uma vez.

Estes surpreendentes resultados foram revelados, em 2014, num estudo publicado na revista Science pelo psicólogo Timothy Wilson, da Universidade da Virgínia (EUA), e colegas. Mais precisamente: 12 dos 18 homens (67%) e seis das 24 mulheres (25%) testados preferiram receber choques elétricos a não ter nada para fazer (a não ser pensar) durante a sua curta permanência em isolamento forçado.

“O mais notável”, escreveram na altura os autores, “é que o fato de estar simplesmente a sós com os seus próprios pensamentos durante 15 minutos era aparentemente tão insuportável que levou muitos participantes a auto-administrar um choque elétrico apesar de terem anteriormente declarado que estavam dispostos a pagar para o evitar”.

Por que é que isto aconteceu? A ideia dos (ainda) raros especialistas que estudam este tipo de fenômenos é que o que está aqui subjacente é nada mais, nada menos do que a nossa aversão pelo tédio. Por alguma razão, não ter nada para fazer é o pior que nos pode acontecer.

No trabalho da equipe de Wilson, a questão do tédio não era explicitamente levantada. Mas em 2015, Chantal Nederkoorn e colegas, do Departamento de Psicologia e Neurociências da Universidade de Maastricht (Holanda), realizaram um estudo semelhante cujo objetivo era assumidamente determinar se o tédio induzido nas pessoas pelo visionamento de um vídeo monótono e repetitivo poderia promover o consumo de guloseimas – e mesmo a auto-administração de choques elétricos por parte dos participantes. Os seus resultados, publicados na revista Appetite, corroboram o estudo norte-americano e incluem explicitamente o tédio na equação: “As pessoas podem estar dispostas a procurar estímulos negativos, por exemplo a magoarem-se, só para fugir ao tédio”, concluíam os autores.

O tédio tem acompanhado os seres humanos ao longo dos séculos, como atestam a literatura, a arte e a filosofia. Mas a primeira abordagem científica da questão data de 1885, num curto artigo, publicado na revista Nature pelo ímpar Francis Galton, primo de Charles Darwin e um dos pais da estatística moderna, entre muitas outras coisas.

No texto, intitulado Medir a irrequietude (The measure of fidget), Galton relatava como tinha passado o tempo, durante uma palestra particularmente chata, a imaginar uma forma objetiva de calcular o estado de aborrecimento da assistência. E concluía: “Gostava de sugerir aos filósofos praticantes, quando as reuniões em que participam se revelarem aborrecidas, que se entretenham a estimar a frequência, amplitude e duração da irrequietude dos seus companheiros de infortúnio. (…) Penso que desta forma poderão adquirir uma nova arte de conferir expressão numérica à quantidade de tédio geralmente expressa pelo público durante qualquer apresentação de trabalhos”.

Texto: Ana Gerschenfeld

(*) Publicado originalmente na edição 171 da Revista Pará+.

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