'Serial killer' de gatos intriga polícia e deixa famílias em luto na Grã-Bretanha

730x250

Ninguém sabe ao certo o que aconteceu com Scooter, a gata preta da britânica Chantelle.

Na última vez que ela a viu, ambas estavam na cozinha em uma noite de verão. Na manhã seguinte, a gatinha desapareceu.

Quando Chantelle a procurava pela rua, um vizinho a avisou que encontrou Scooter à 1h, morta no lado de fora de sua casa. Ele pensou que a gata pudesse ter sido atropelada, embora nunca houvesse muita movimentação de veículos naquela área residencial.

  • A escola britânica que deu a volta por cima ao incluir música em todas as disciplinas
  • Como a Bolívia se tornou o país que mais cresce na América do Sul

O vizinho disse a ela que havia entrado em casa para pegar um cobertor para cobrir o corpo e, quando voltou, este tinha desaparecido. Ele presumiu que raposas fossem as culpadas.

Mas, mais tarde naquele dia, outro vizinho procurou Chantelle e avisou que também havia encontrado Scooter.

Desta vez, a gatinha morta foi vista às 5h30 no gramado da vizinha. Sua cauda havia sido removida e um corte atravessava o corpo, da cabeça ao abdômen. Suas tripas foram arrancadas e colocadas ao lado dela, na grama.

O segundo vizinho chamou autoridades locais para retirar o corpo, portanto Chantelle não viu Scooter com os próprios olhos. Mas ela tinha certeza de uma coisa: a morte da gata não fora um acidente.

O caso é um dos tantos atribuídos a um assassino em série que tem atacado gatos de estimação em Londres e arredores, deixando um rastro de tristeza, medo e desconfiança que já dura dois anos.

Ação desde 2015

Antes da morte de Scooter, Chantelle já tinha lido histórias sobre um assassino de gatos que operava em torno da M25, uma rodovia nos arredores de Londres. Mas não imaginava que seus animais estivessem em perigo na sua casa em St Leonards-on-Sea, a 80 quilômetros da capital inglesa.

Ela e seu marido estão agora pensando em se mudar para uma nova casa, protegendo seus demais felinos.

“Eu nunca fui nervosa em toda a minha vida, e agora ele (assassino de Scooter) estragou a tranquilidade que sempre tivemos”, diz.

A pessoa que Chantelle pensa ser responsável pela morte de Scooter é um assassino em série de gatos que vem operando na Grã-Bretanha desde 2015.

A polícia diz ter certeza de que se trata de um homem e que ele pode ter matado mais de 370 animais, principalmente gatos de estimação, mas também raposas, coelhos e possivelmente uma coruja selvagem.

As primeiras vítimas de que se tem notícia são de Croydon, no sul de Londres – dando ao assassino a alcunha de “Croydon Cat Killer” (“matador de gatos de Croydon”).

Mas os assassinatos foram mais tarde reportados em outras áreas de Londres, gerando um segundo apelido, “M25 Cat Killer” (“matador de gatos da rodovia M25”).

E seu campo de ação se espalhou para ainda mais longe do que isso, chegando a diferentes áreas da Inglaterra.

Luto

No início de junho, um pequeno grupo de pessoas se reuniu em um salão em Croydon. Eles ouviam uma harpista tocar e acendiam velas em uma mesa – sobre a qual se destacava uma grande fotografia de um gato malhado.

Eles estavam ali para homenagear os animais assassinados.

“O amor vai resolver isso”, afirmou a organizadora da cerimônia, a sul-africana Boudicca Rising, ativista local pelos animais que se dedica ao resgate de animais desde que se mudou à Grã-Bretanha, em 1994.

Ao longo dos últimos dois anos, Boudicca e seu parceiro, Tony Jenkins, têm sido protagonistas na caça pelo assassino de gatos.

Em 2015, quando surgiram relatos de mortes de animais e raposas no sul de Londres, o casal se questionou se seria obra de alguma gangue.

“Mas com o passar do tempo percebemos que provavelmente lidamos com um assassino em série”, diz ela.

Boudicca e Tony agora cooperam oficialmente com a polícia londrina, que criou uma força-tarefa especial para o caso.

“Algumas pessoas podem zombar disso, mas o sentimento de perda dos donos (dos animais) é muito real”, explica o responsável pela força-tarefa, o detetive-sargento Andy Collin.

A cada morte reportada, há protocolos – desde análise das cenas dos crimes até autópsias – para tentar definir se esta foi acidental ou se pode ser obra do mesmo assassino.

“É importante para nós lidar com os casos que estão claramente interligados”, explica Collin. “É bem possível que outras pessoas tenham ‘pego carona’, imitando (o assassino original).”

A Snarl, organização da sul-africana Boudicca, ajudou a montar um perfil dos métodos usados pelo assassino: ele ataca principalmente à noite, em áreas residenciais, geralmente atraindo suas vítimas com ração ou pedaços de frango cru. Mata-as rapidamente, aplicando algum tipo de força bruta.

Houve casos de animais que tiveram suas cabeças ou patas decepadas. Os corpos costumam ser deixados perto das casas das vítimas ou em espaços públicos, como playgrounds.

A brutalidade dos casos chega a deixar as pessoas incrédulas, afirma Boudicca. “Há quem prefira acreditar que qualquer outra coisa está acontecendo, menos isso.”

A discussão chegou às redes sociais. Na página da Snarl no Facebook, eclodiram brigas entre quem acusa a organização de exagerar o problema – dizendo que os animais foram mortos por acidente ou por raposas – e quem busca vingança contra o autor das mortes.

De qualquer modo, opina Boudicca, “é bom colocar a raiva para fora. Não quero que as comunidades represem, porque isso não vai acabar bem.”

Com as redes sociais, Boudicca também conseguiu ajuda de voluntários para distribuir panfletos alertando para o problema.

“Tanta gente ainda não sabe que há um assassino de gatos (à solta)”, diz a voluntária Julie, agregando que muitos temem que o responsável pelas mortes seja parte das próprias comunidades.

Como muitos serial killers começam suas séries de matanças com animais, o detetive Andy Collin teme que o matador de gatos acabe voltando suas atenções a humanos.

Um perfil montado pela Agência Nacional Anticrimes britânica sugere que a raiva do assassino com gatos derive de um problema mais profundo com mulheres ou com alguma mulher específica.

“Gatos são alvejados porque são associados com o feminino – o assassino não consegue lidar com alguma mulher ou algumas mulheres”, diz Collin.

“O perigo (…) é que ele sinta coragem o bastante para avançar contra mulheres ou garotas vulneráveis.”

Ele admite uma “enorme frustração” por não ter conseguido encontrar o assassino até agora.

Em agosto, a polícia chegou a identificar um homem de cerca de 40 anos que foi visto por testemunhas perto de uma cena de crime no sul de Londres, mas pouco além disso.

O fato de a maioria dos ataques ter ocorrido em zonas residenciais tranquilas não ajuda os investigadores, já que muitas ruas não são filmadas por câmeras de segurança.

Até agora, provas forenses tampouco resultam em pistas promissoras: é quase impossível obter o DNA a partir de pelo de gato, e suspeita-se que o assassino use luvas, já que não foi encontrado tecido humano sob as garras das vítimas.

Houve progresso, porém, na definição do perímetro geográfico das áreas atacadas.

Addiscombe, subúrbio próximo a Croydon, foi identificada como a área onde tudo começou. Suas ruas e becos reclusos, atrás de casas com jardim, facilitaram a vida de quem entrou e saiu das residências sem ser percebido.

“Há algo em Addiscombe com grande ligação (com o assassino)”, acredita Collin. “Talvez ali esteja a casa da infância dele, ou onde ele mora.”

Em setembro, o primeiro laboratório forense britânico dedicado a crimes contra animais – conhecido como CSI de animais – anunciou que reexaminaria os corpos de dezenas de gatos que possivelmente foram mortos pelo assassino.

“Estamos analisando vários elementos diferentes deste caso em nível forense, um trabalho que ainda não foi feito”, diz Dave Fergunson, porta-voz da instituição.

A notícia trouxe algum alento a Naomi, que permitiu que o corpo de sua gata Ivy fosse refrigerado justamente para eventualmente ajudar nas investigações.

Ela se lembra do dia em que Ivy simplesmente não apareceu quando ela a chamou para comer. A dona buscou pela gata a pé e de carro, até encontrar seu corpo decapitado às margens de uma rodovia movimentada. Sua cabeça não foi encontrada.

“Fiquei muito abalada. Não conseguia parar de chorar”, conta.

Com depressão e ansiedade, Naomi tirou três semanas de licença do trabalho. Ela até hoje tem pesadelos e insônia.

Seus demais gatos agora ficam trancados em casa durante a noite, e ela volta mais cedo para se assegurar que eles estejam bem.

“Um gato ser atropelado você consegue aceitar, é um acidente”, explica Naomi. “Isso é completamente diferente. Além de muita dor, causa uma sensação de raiva.”

Boudicca diz esperar que histórias como as de Naomi e Chantelle ajudem as pessoas a entender o peso emocional causado pelos atos do assassino, além de fazer com que mais testemunhas decidam falar.

“Nosso problema é que as pessoas ainda pensam nele como apenas o ‘assassino de Croydon’, mesmo que já há algum tempo ele tenha espalhado (sua área de atuação)”, diz ela.

“Espero que as pessoas entendam que precisam manter seus gatos dentro de casa, ficar de olho em comportamentos estranhos e reportar à polícia. Acima de tudo, espero que alguém reconheça suas características e os locais onde ele matou – e o denuncie.”

.

BBC Brasil – Primeira página

COMPARTILHAR