Pronta para ganhar o mercado

Estudo aponta benefícios da pupunha albina

Por Armando Ribeiro Foto Alexandre de Moraes

Quando se pensa em pupunha, existe um conjunto de características que vem à cabeça do paraense, como o cheiro, a aparência e a cor. Esse alimento tem um espaço privilegiado na cultura local, sendo consumido a qualquer hora do dia, com os mais diversos acompanhamentos, ainda que a combinação preferida seja pupunha com o cafezinho da tarde. Além de muito popular, o fruto possui vários compostos que beneficiam a saúde, tornando-o valioso para o campo nutricional.

Ao se deparar com a pupunha albina, a professora Orquídea Vasconcelos dos Santos se questionou: como surgiu essa mutação? Ela possuiria as mesmas propriedades e os atributos das pupunhas tradicionais? Assim surgiu o Projeto Análise comparativa da constituição nutricional e funcional da polpa e casca da pupunha vermelha e da pupunha albina (Bactris gasipaes kunt), que verifica os produtos e os subprodutos dessa oleaginosa amazônica, como óleos, casca e farinha, de maneira a valorizá-los nos sentidos social, comercial e ambiental. A pesquisa é desenvolvida no Laboratório de Ciências dos Alimentos da Faculdade de Nutrição (ICS/UFPA).

A bioquímica relata que a importância de pesquisas com essa vertente está na visibilidade dada aos produtos amazônicos, “nós queremos entrar no dia a dia do paraense e procurar formas de fazer a diferença com produtos que essas pessoas utilizam no seu cotidiano.” Já para a graduanda de Nutrição e bolsista da pesquisa Pamela Sodré, o estudo vai contribuir para a relação dos profissionais da área com os seus pacientes. “Por ser muito consumido na nossa região, é essencial conhecermos as potencialidades do fruto e, assim, orientarmos sobre os benefícios de seu consumo”, afirma a bolsista.

Como o nome sugere, a pupunha albina possui a coloração branca, bem diferente das cores com as quais estamos acostumados. A descoberta é recente, tendo sido pouco estudada até o momento. De acordo com a coordenadora do projeto, pela aparência, já é possível perceber que o fruto perdeu vitamina A, pois esse composto é responsável pela característica cor avermelhada. Além disso, o óleo da pupunha branca também sai perdendo em comparação com as outras, pois possui entre 10 e 15% a menos de teor lipídico. Esse aspecto faria a albina pouco competitiva. Em compensação, o seu valor de fibras é maior do que o das outras espécies.

Quanto ao sabor, a pupunha branca é mais suave. Palome Sobré chama atenção para o potencial do fruto para fazer farinha, já que é rico em amido. “Quando misturamos com outras comidas, o sabor não se perde, pelo contrário, se acentua. Nada vai tirar o hábito de comermos as pupunhas vermelhas, mas se a branca fosse para o mercado como farinha, acho que teria uma boa aceitação. É um fruto gostoso, fora do que estamos acostumados. Tem um sabor só seu”, observa a estudante.

Resultados foram compartilhados com a comunidade

A metodologia utilizada na pesquisa foi a do padrão internacional, para que os artigos desenvolvidos possam ser divulgados em âmbito nacional e internacional. Na análise das pupunhas, foi realizado um delicado trabalho de lavagem, secagem e cozimento, para se igualar à forma como são ingeridas pelo consumidor. “Precisamos tomar o máximo de cuidado, porque qualquer erro pode fazer com que elas percam os componentes sensíveis. Evitamos trabalhar com altas temperaturas e metais que podem oxidá-las, então até as bandejas em que as pupunhas ficam devem ser de vidro ou cobertas com tecido de algodão”, explica a professora Orquídea Vasconcelos dos Santos.

A coordenadora do projeto informa que utilizar frutos como a pupunha é uma forma de preservar o meio ambiente, já que, para se obter o fruto, não é preciso derrubar a árvore. “Quando uma árvore se mantém de pé, é uma comunidade que vai poder se fixar no terreno e manter sua fonte de vida”, afirma Orquídea.

A pupunha branca é obtida em parceria com a Comunidade Quilombola do Abacatal. Nesse contato, a professora pôde constatar que, para os vendedores, a mutação era algo sem valor, considerada um defeito. As pupunhas brancas eram vendidas a um preço mais baixo. Nesse momento, Orquídea Vasconcelos percebeu a necessidade de voltar à comunidade e mostrar como a pupunha branca pode ser usada, apontando os diversos usos que esse fruto pode ter e, com esse uso, pode valorizar os produtos regionais.

Para a estudante Pamela Sodré, a necessidade de devolver à comunidade o conhecimento técnico tem mostrado resultados. “Agora, com esse conhecimento, os vendedores poderão explicar os benefícios e as vantagens da pupunha albina para os clientes. O fruto passa por uma valorização, acabando com o estigma de indesejado e melhorando a renda daquelas pessoas”, avalia.

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