Por que as Mulheres entre 40 e 50 Anos são as Mais Tristes do Brasil?

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Vocês já ouviram falar da “curva da felicidade”? Pesquisas realizadas por economistas em 80 países, com mais de dois milhões de homens e mulheres, encontraram um padrão constante: as pessoas mais felizes são as mais jovens e as mais velhas, e as menos felizes são as que estão entre 40 e 50 anos.

Os resultados mostraram uma “curva da felicidade”, no formato da letra U, com o seu ponto mais baixo em torno dos 45 anos. De acordo com os estudos, a felicidade é maior no início da vida, diminui ao longo dos anos e, depois dos 50, passa a crescer.

Na minha pesquisa “Corpo, envelhecimento e felicidade”, com cinco mil homens e mulheres de 18 a 96 anos, também encontrei uma curva da felicidade. As mulheres entre 40 e 50 anos são as que demonstram estar mais insatisfeitas, frustradas, exaustas, deprimidas e infelizes. Elas reclamam, principalmente, de falta de tempo, falta de reconhecimento e de falta de liberdade. Algumas ainda dizem que “falta tudo”!

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Quando perguntei o que elas mais invejam nos homens, elas responderam, em primeiríssimo lugar: liberdade. Em segundo lugar, elas disseram: fazer xixi em pé. Elas também invejam a liberdade masculina com o corpo, a liberdade sexual, a liberdade para rir de qualquer bobagem e muitas outras liberdades.

Quando perguntei o que as mulheres mais invejam em outras mulheres, elas responderam: corpo, beleza, juventude, magreza e sensualidade.

O corpo invejado por elas é jovem, magro e sensual. No Brasil, este modelo de corpo é considerado um verdadeiro capital.

As mulheres brasileiras estão entre as maiores consumidoras do mundo de cirurgia plástica, botox, preenchimentos, remédios para emagrecer, moderadores de apetite, medicamentos para dormir, ansiolíticos, tintura para cabelo. São as que mais estão insatisfeitas com o próprio corpo, as que mais deixam de sair, ir a festas e até mesmo de trabalhar quando se sentem velhas, gordas e feias.

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Não é à toa que as brasileiras têm um verdadeiro pânico de envelhecer, como disse uma professora de 45 anos:

"A minha maior crise foi quando fiz 40 anos. Entrei em pânico por estar ficando velha. Não sei se faço plástica, coloco botox, se posso continuar usando minissaia, biquíni, shorts. É a fase do 'será que eu posso?'. Sou uma mulher invisível, uma 'nem, nem': nem jovem, nem velha". 

É nesta fase da vida que outro problema ameaça restringir a liberdade feminina por falta de conhecimento e de informação: a incontinência urinária.

Muitas mulheres que pesquisei falaram de diversos assuntos, até mesmo alguns considerados tabus, mas se sentiram envergonhadas com um problema tão comum. Descobri que muitas deixam de fazer atividades do dia a dia, não viajam, não vão ao teatro ou cinema, com medo de passarem algum tipo de constrangimento em decorrência dos escapes de urina. E, pior ainda, elas sofrem caladas.

Outras, no entanto, aprenderam a cuidar muito mais de si mesmas, e aproveitar os recursos disponíveis, desde produtos específicos a tratamentos, para se sentirem cada vez mais livres e felizes. Elas têm consciência de que muitas mulheres têm os mesmos problemas e que não estão sozinhas. Descobriram a importância de falar abertamente sobre o tema, e encontraram uma maior solidariedade, empatia e companheirismo entre as mulheres.

As mulheres de mais de 60 anos que eu pesquisei afirmaram categoricamente: “Este é o melhor momento de toda a minha vida. Nunca fui tão feliz. É a primeira vez que eu posso ser eu mesma. Nunca fui tão livre”.

E como elas conquistaram a liberdade tão desejada?

Em primeiro lugar, elas descobriram que o tempo é um bem precioso. Elas não podem e não querem desperdiçar o próprio tempo. As mulheres mais jovens querem agradar e cuidar de todo mundo e reclamam que não têm tempo para elas. Mais velhas, passam a colocar o foco no próprio desejo e priorizar o tempo para cuidar delas. Esta mudança de foco é uma verdadeira revolução.

Elas também aprenderam a dizer não, algo que parece muito simples, mas não é. Junto com o aprendizado, fizeram uma verdadeira faxina existencial. Jogaram fora as roupas que não serviam mais, os cacarecos, as coisas que elas não precisam. E também deletaram das suas vidas aquelas pessoas que fazem mal, que só criticam, que sugam a energia: os verdadeiros vampiros emocionais.

As mulheres falaram muito da importância das amigas. São as amigas que cuidam, que escutam, que conversam, que levam ao médico, que telefonam todos os dias para saber como elas estão.

Elas falaram mais das amigas do que do marido, dos filhos e dos netos. Quando perguntei: “Quem vai cuidar de você na velhice?”, elas responderam: “eu mesma” e, em seguida, “minhas amigas”.

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Elas também aprenderam a brincar e rir muito mais. 60% das mulheres mais jovens que eu pesquisei invejam a capacidade masculina de rir de qualquer bobagem. Eu perguntei, então, porque elas não riem mais, Elas responderam: “porque eu não tenho tempo ou porque eu tenho muito medo do que os outros vão pensar”.

Com a maturidade, elas se sentem livres para rir muito mais, especialmente delas mesmas. Elas têm muito mais informação e recursos para cuidar do próprio corpo e saúde.

Uma médica de 62 anos disse: "Não consigo compreender porque precisei demorar tanto tempo e chegar aos 60 para descobrir uma coisa tão simples: que liberdade é a melhor rima para felicidade. A minha receita para uma vida plena e feliz é ter projetos de vida, ser eu mesma, não me comparar com outras mulheres, dizer não para tudo o que eu não quero na minha vida. Dar muitas risadas, e, principalmente rir de mim mesma, tem sido o meu melhor remédio. Dou tantas gargalhadas que sempre faço xixi na calcinha. E daí? É só me proteger e me cuidar direito!". 

É interessante perceber como uma mulher mais madura pode rir e brincar com um problema tão comum e que provoca tanta vergonha entre as mulheres.

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Será que as mulheres precisam esperar tanto tempo para descobrir que liberdade é a melhor rima para felicidade? E que nosso corpo, em todas as fases da vida, não deve ser motivo de vergonha, mas de orgulho e de cuidado?

Fonte: Texto escrito por Mirian Goldenberg para o Huffpost Brasil

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