O Youtube é praticamente uma babá eletrônica das crianças

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O youtube babá. Foto: Unsplash

Paola tem sete anos e sua vida inteira está no YouTube. Especificamente, está distribuída em dois canais. O canal mais antigo mostra ela bebê, bocejando, dando seus primeiros passos, fazendo aniversário.

Jonas Santana atualmente com 20 anos, tio da menina, criou o canal aos 13 para praticar edição de vídeo, registrar o crescimento da sobrinha e se divertir. Ele ficou surpreso quando descobriu, em julho do ano passado, que Paola havia criado, sozinha, um segundo canal no site.

Intitulado “O mundo de Paola”, ele tem um estilo de vlog, com vídeos temáticos sobre o cotidiano da menina. Há Paola dando banho no cachorro, brincando com o irmão menor, fazendo estrela na calçada. Jonas a ajuda com parte da edição e da divulgação nas redes sociais, mas foi ela quem filmou, cortou e publicou a maior parte dos vídeos. Ela também domina o léxico do site: deixe o seu like, se inscreva no canal e vamos lá.

Paola passa uma parte considerável do seu dia na plataforma, geralmente antes do almoço, quando está na casa da avó esperando a perua da escola chegar. Ela gosta dos vídeos de slime, espécie de geleca feita em casa e não gosta mais do canal do youtuber Luccas Neto, o segundo maior no Brasil (pois para ela, ele parece uma criança de um ano). A menina acessa o YouTube em dois tablets: um que ganhou da mãe, aos cinco anos, e outro que ganhou ao participar do programa Bom Dia e Cia., do SBT. (O momento foi devidamente registrado em seu canal mais recente.)

Glaucia Ribeiro, a mãe da Paola, se preocupa com o que a filha assiste na internet. Ela trabalha como funcionária terceirizada no setor de documentação da polícia federal e passa a maior parte do dia fora de casa. Já deixou a menina de castigo — isto é, sem tablet — quando descobriu que ela tinha conversado com um estranho no YouTube.  “Vou falar a verdade, eu fico com medo”, afirma. “É muito perigoso. Ela adora se comunicar, mas eu sempre estou de olho.”

A 30 quilômetros dali, na cidade de Jandira (grande São Paulo), a marqueteira Cristiane Coradi usa o YouTube com mais otimismo. Ela acessa pelo iPad canais educativos voltados para crianças especiais, como o “Nossa vida com Alice”. Esses canais têm vídeos mais lentos e simples que os demais, e usam música e repetição para facilitar a assimilação de conteúdos. Somados a muita terapia, eles têm ajudado seu filho Léo, seis anos, portador de síndrome de Down, a desenvolver a fala e formar sílabas.

“Não sou contra tecnologia”, diz Cristiane. “Acho que tecnologia está aí e a gente tem que usar. Mas tudo tem que ser com o tempo, entendeu?”

Devido ao Down, Léo não consegue acessar o YouTube sozinho. É com alguma frequência, no entanto, que Cristiane precisa regular a quantidade e a qualidade de vídeos consumidos por seu filho mais velho, Guilherme, de nove anos.

“Os youtubers que essa molecada segue não têm muito conteúdo. É muito besteirol”, ela opina. (Guilherme gosta de canais de curiosidades, pegadinhas e de Felipe Neto.) Ela não restringe propriamente o tempo que ele passa no YouTube, mas o tempo que ele passa em frente a alguma tela — seja o iPad, o celular dos pais ou a televisão (ligada no Netflix). Em um mundo que as telas, pela economia e onipresença, tendem a substituir cada vez mais o contato humano, essa pode ser uma decisão acertada.

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Crianças quietas no sofá acessando youtube. Foto: Marketing Land

Acesso das crianças é difícil de monitorar

Para Cristiane, não dá para lutar contra a tecnologia. Proibi-la de vez seria algo impossível, e só atiçaria mais o interesse das crianças. A internet, aliás, estaria muito próxima de ser a única referência que elas têm para assistir a filmes, séries e ouvir música. “Eu trabalho com pesquisa de mercado, e quando a gente vai entrevistar o jovens, eles não veem televisão mais. É só YouTube e Netflix.”

Será? Segundo o relatório Kids Online, realizado pelo Comitê Gestor de Internet no Brasil (CGI), “até dezembro de 2017, a audiência do conteúdo infantil disponível na plataforma [Youtube] ultrapassou os 115 bilhões de visualizações por crianças de zero a 12 anos”.

O mesmo relatório aponta que, em 2017, 85% da população entre 9 e 17 anos era usuária de internet no país. Isso equivale a 24,7 milhões de pessoas. Delas, 77% usavam a web para assistir a vídeos online.

Outro levantamento do CGI, lançado no final do ano passado, mostra que “88% das pessoas entre 10 e 15 anos assistiram a filmes, programas ou séries pela internet [no período anterior à pesquisa]”. Quase metade das crianças dessa faixa etária, ou 49%, acessa a internet exclusivamente pelo celular.

O crescimento no uso do celular — e a diminuição proporcional do uso em desktops e notebooks — é a principal tendência identificada nas duas pesquisas. Mas traz limitações: se, por um lado, o celular tem sido o principal motor da inclusão digital no Brasil nos anos recentes, ele não consegue desempenhar plenamente todas as atividades. E conforme aponta a coordenadora do Kids Online, Luísa Adib Dino, o celular dificulta a mediação dos pais e torna o uso da internet cada vez mais individualizado.

Também segundo ela, no consumo de vídeos online, “a classe econômica faz muita diferença”. “Ainda que a maior parte dos jovens tenha acesso à internet por meio de celulares, e a maior parte relate que acessou vídeos pela internet, a frequência com que eles podem fazer isso varia pela classe social. O acesso via Wi-Fi acaba ficando mais concentrado em determinada classe social do que em outras”.

O sucesso entre as crianças

Os vídeos infantis são uma das três categorias com mais visualizações no YouTube brasileiro — as outras duas sendo os vídeos de funk e sertanejo. Na análise de Luciana Corrêa, pesquisadora da ESPM especializada na relação entre as crianças e o YouTube, três fatores explicam o sucesso da plataforma no país.

Primeiro, há o aumento no acesso da população geral à internet, possibilitado principalmente pelo uso do celular. Há também o fato do YouTube ser gratuito e acessível a todo instante e em qualquer lugar — seja para matar o tempo até os pais voltarem do trabalho, seja para acalmar a criança que chora em um restaurante. Por fim, há a redução drástica da programação infantil na TV aberta.

Programas como a TV Globinho ou os desenhos que passavam na TV aberta quase não existem mais porque comprar espaço publicitário no intervalo dessa grade ficou pouco atrativo para os anunciantes. Isso se deve, por sua vez, à aprovação de uma resolução do Conanda (Conselho Nacional de Direitos da Criança e do Adolescente) emitida em 2014, que considera abusiva a publicidade infantil.

A aplicação prática dessa resolução proíbe as inserções publicitárias de incentivar a criança a pedir que seus pais comprem determinado produto, substituir uma refeição por guloseimas, entre outros discursos. Se, por um lado, a regra tinha em vista proteger a criança do consumismo, por outro ela perdeu sua abrangência com a mudança da TV para o YouTube. No site, a propaganda infantil é mais frequente (um vídeo de 17 minutos do Felipe Neto chega a ter sete inserções publicitárias) e mais difícil de regular, apesar de se submeter à mesma lei que regula a propaganda da TV.

A pesquisadora Luciana Corrêa intui — mesmo sem ter os dados específicos — que o consumo de YouTube seja mais frequente entre as crianças que não têm acesso à TV paga ou streaming. Ela levantou, em 2016 que dos 100 canais de maior audiência do Brasil, 48 eram voltados a crianças.

Para ela, fenômenos como os vídeos de slime e unboxing (que mostram uma pessoa abrindo um produto) não são nada inexplicáveis. “Tem as duas coisas que as crianças mais gostam de fazer: brincar e abrir brinquedo”, afirma.

De modo semelhante, ela aponta que a transição pela qual passou o YouTube infantil é parecida com a que houve na TV. Nos dois meios, primeiro havia um adulto apresentando conteúdo infantil; depois, um adulto infantilizado; por fim, uma criança. “A gente tem a possibilidade da criança ser apresentadora [de um canal no YouTube], já que na TV ela não pode ser mais.”

Mas o YouTube tem consequências que vão além das mudanças no mercado publicitário. Estudos apontam dificuldades na geração recente de manter o foco em conteúdos de profundidade.

A estudante universitária Yasmin Pereira percebeu isso na sua irmã Amanda (nome fictício), de 12 anos. Moradora do Guarujá (SP), a menina é fã de vídeos de maquiagem e k-pop.

“O vídeo é uma coisa tão dinâmica que, na hora que ela vai fazer outras atividades, não consegue manter o foco por muito tempo. Piorou muito o rendimento dela na escola”

Para ela, isso se deve ao tempo livre que sua irmã tem depois da escola, mesmo fazendo esporte três vezes na semana. A mãe das duas trabalha como analista química e precisa fazer muitas horas extras no seu emprego novo — não tem como monitorar a filha.

O desenvolvimento cerebral também é uma preocupação para Emilly Santana (sem parentesco com Jonas, Glaucia ou Paola, que foram citados anteriormente). Com 22 anos, ela é mãe de uma menina de dois e está concluindo o curso de Lazer e Turismo. Mesmo passando muito tempo fora de casa, ela tenta estar na mesma sala que a filha toda vez que ela assiste a algo no YouTube ou no Netflix infantil. (A televisão aberta é proibida, devido ao receio de esbarrar em algo inapropriado.)

Conteúdo infantil virou tão relevante que YouTube lançou a versão Kids. Crédito: Divulgação

“A minha preocupação sempre foi o desenvolvimento dela”, diz Emilly. “Eu não vou colocar desenho se eu vir, por exemplo, que ela fica sentada, extasiada, não pisca, não fala, não se mexe. Eu não gosto”.

Segundo o relatório Kids Online, de nove países analisados, o Brasil é o que tem maior consumo de redes sociais (incluindo o YouTube) por crianças de nove a dez anos. Luciana Corrêa vê esse indicador como consequência do número pequeno de crianças que têm acesso a estudo em período integral no país (somente 9% dos alunos matriculados no ensino fundamental, segundo o Inep). Mas também vê um excesso de permissividade dos pais.

“Como mãe, eu acho que os pais têm muita preguiça”, opina. Do quê, exatamente? “De desligar o celular e levar as crianças para outras atividades”. Luciana, que tem uma filha de oito anos e a cria praticamente sozinha, diz que também chega tarde em casa — mas que, mesmo assim, tenta ler para a filha toda noite e estimulá-la com brincadeiras analógicas.

“A criança troca o celular por qualquer atividade com o pai ou a mãe”

“Minha recomendação é: comece desde cedo. Não é desde os dois anos dar o celular, é desde os dois anos não dar o celular. Não ligar a TV. Não estimular. Porque quanto mais você der, mais ele vai gostar. Quanto antes você puder diminuir esse acesso, é melhor”.

Em casa, essas diretrizes são lei. Sua filha, Laura, obviamente assiste ao YouTube — mas o faz por uma conta conjunta com a mãe, que a permite monitorar o histórico de vídeos. Além disso, só ganhou permissão para usar o celular nos dias úteis de poucos meses para cá. “Eu não me arrependo [de estabelecer essas regras], porque a minha filha brinca. E uma reclamação que ouço muito dos outros pais é que ‘meus filhos não brincam’”.

Luciana também acredita que haja uma relação entre o alto consumo de redes sociais das mães e os hábitos digitais de seus filhos. Talvez, diz, a questão prioritária seja educar os pais antes de educar, propriamente, as crianças. Afinal, “eles já sabem o que os filhos consomem, já sabem que é um absurdo. Blá-blá-blá. Mas e aí? Eles não sabem o que fazer com essa informação”.

Por isso, ela explica, é tão urgente que os pais assumam o papel da mediação. “O consumo só aumenta”.