Associação dos Artesãos de Brinquedos de Miriti de Abaetetuba – ASAMAB

Miriti é árvore santa
que vira rede,
cobre a cabana, vira cama.
Vira suco, mingau e até licor!
Dá sustento
pra mode a vida seguir seu balanço…
vira brinquedo,
passagem pro mundo de sonhos herdado.

Raquel Lara Rezende

As mãos que criam, criam o que?

O braço do miriti, palmeira nativa de áreas alagadiças, vira canoa, cobra, pássaro, gente. Brincar é uma das atividades mais importantes do ser humano. Brincando se aprende a entrar no universo da imaginação e do sonho. Os brinquedos são como um convite à criança, e ao adulto, a adentrar esse universo mágico, onde tudo é possível. A produção dos brinquedos envolve um processo de criação que é coletiva, pois a inspiração para os temas que são talhados na palmeira tem como fonte os mitos da região, a fauna e a flora, os costumes e as festas, como o Círio de Nazaré, uma das maiores procissões do Brasil e do mundo. Dessa forma, os brinquedos estabelecem o diálogo entre o real e o imaginário, despertando o afeto e a sensibilidade daqueles que vivem no lugar e podem ver nos brinquedos as histórias, lendas e o cotidiano da comunidade. A produção dos brinquedos de muriti é uma herança indígena que envolve, hoje, centenas de famílias na região de Abaetetuba, sendo considerado um processo sustentável de produção, tombado como património histórico cultural imaterial, pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan).

Onde criam?

Abaetetuba, que significa “reunião de homens verdadeiros”, na língua tupi, é conhecida como a capital mundial do brinquedo de Muriti. Está localizada na região nordeste do estado do Pará, a 60 km de Belém, no Baixo Tocantins e possui uma rede hidrográfica bastante vasta, sendo quase toda navegável, contando com florestas de terra firme e de várzea. A cidade abarca um conjunto de 72 ilhas que são habitadas por comunidades ribeirinhas e quilombolas que possuem memórias, costumes e práticas culturais distintas.

A beira do rio Guamá é o ponto de encontro entre as comunidades que vivem nas ilhas e a população urbana e por estar mais situada no cais da cidade, abriga a mais rica feira do município. A localização facilita o escoamento dos produtos trazidos de barcos ou canoas, pelos ribeirinhos que vendem sua produção para os consumidores diretos, ou para os atravessadores. Estes são uma figura muito tradicional na região que navegam pelas comunidades, vendendo alimentos e toda espécie de produtos utilizados no dia a dia. Sua importância é refletida na sua representação presente na fabricação dos brinquedos. Uma das histórias que circula na região conta que a cobra-grande – também representada nos brinquedos – , protetora da beira, impede a mudança de local da feira. Dizem que sempre que um prefeito pensa na possibilidade de mudar a feira de lugar, a cobra-grande se põe a mexer e quebra calçadas, expressando seu descontentamento.

A região de Abaetetuba possui miritizeiro em abundância, também conhecido em outras regiões do país como buriti. É chamada pelos paraenses de “árvore santa” ou sagrada, por sua importância na vida de muitas comunidades tradicionais que aproveitam toda a árvore, tendo o cuidado de manejá-la de forma sustentável, sem derrubá-la. O fruto é utilizado para a alimentação, a palha para a construção das cabanas, a fibra das folhas para a confecção de redes e os braços e a bucha, fibra conhecida como isopor da Amazônia, para a produção dos brinquedos.

São mais de cem famílias envolvidas na Associação que vivem do artesanato, sendo a pesca outra atividade bastante presente. Cada grupo familiar possui um atelier onde trabalham. O processo artesanal envolve a coleta da palmeira do miritizeiro, o corte, o entalhe, o lixamento, a celagem, e por fim, a pintura e montagem dos brinquedos. As etapas do processo de produção dos brinquedos são dividias de acordo com as habilidades de cada um. O corte do miriti, considerada a tarefa mais importante, é geralmente feito pelo homem que responde como artesão principal. Na época da festa do Círio de Nazaré, os artesãos saem às ruas para vender os brinquedos que, tradicionalmente, estão presentes colorindo as ruas de Belém. Com seus bonecos, canoas e cobras em mãos, ficaram conhecidos como “homens do brinquedo” ou “girandeiros”. O encantamento pelos brinquedos despertou o interesse de pessoas de outras regiões e países, e, hoje, circulam pelos grandes centros, distantes do balanço das canoas de Abaetetuba.

 

Saiba mais:

– SABERES DA TRADIÇÃO NA PRODUÇÃO DE BRINQUEDOS DE MIRITI – PATRIMÔNIO CULTURAL Ivamilton Nonato Lobato dos Santos e Maria de Fátima Vilhena da Silva. Revista Educação e Sociedade.

– ARTESANATO DE MIRITI: UMA ANÁLISE DA PRODUÇÃO SUSTENTÁVEL A PARTIR DOS PRINCÍPIOS DA ECONOMIA ECOLÓGICA EM ABAETETUBA – PARÁ. Luiz Wagner da Silva Monteiro e Janaina do Nascimento Rocha. VIII ENCONTRO DA SOCIEDADE BRASILEIRA DE ECONOMIA ECOLÓGICA 5 a 7 de agosto de 2009 Cuiabá – Mato Grosso – Brasil.

Miriti – Da tradição à Indústria

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