Aos 17 anos, a estudante do município de Moju, nordeste paraense, Franciely Barbosa, já sabe bem o que quer. Depois de ter ficado conhecida no Brasil inteiro por sua pesquisa, que utiliza carvão feito a partir do caroço de açaí misturado com argila para substituir de forma sustentável materiais usados na construção civil, ela quer seguir em frente.

“Quero estudar engenheira na USP (Universidade de São Paulo)”, diz ela, que cursa o terceiro ano do ensino médio, na Escola Estadual Ernestina Pereira Maia. Mas, além do vestibular, ela enfrenta outro desafio: conseguir recursos orçados em R$ 400 mil para concluir o processo de patente de sua pesquisa dentro do prazo estabelecido pelo Instituto Nacional da Propriedade Industrial, que se encerrará em fevereiro do ano que vem.

Para isso, a estudante tem buscado caminhos alternativos. Um deles começará no próximo dia 1º de julho, na comunidade ribeirinha de Jupubinha, em Moju. “Vamos trabalhar durante todo esse mês com crianças e jovens de 6 a 17 anos do local. Primeiramente iremos fazer um mapeamento afetivo do local, com eles identificando os principais problemas da comunidade. A partir daí eles farão anotações em um diário de bordo. Em uma segunda etapa, vamos construir uma maquete do que eles gostariam de mudar no lugar onde vivem. Eles também passarão por uma etapa de entender a matéria-prima como o carvão feito do caroço de açaí e a argila, que são as matérias-primas da minha pesquisa”, conta a estudante.

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(foto: Irene Almeida)

A ideia partiu da consultora da estudante, a articuladora de projetos socioambientais Beatriz Cintra, de São Paulo. Com ela, será possível, além de ajudar a própria comunidade, onde vive parte da família da estudante, auxiliar o processo de patente.

“Precisamos de resultados para incluir no relatório de patente e os testes empíricos costumam ser mais baratos, havendo apenas a necessidade de acompanhá-los. Por isso, articulei uma rede em São Paulo e estamos articulando em Moju, contando com parceiros como empresas e o Co-Criança, projeto que nasceu dentro da USP e que coloca a criança como protagonistas da cidade, a partir de atividades e oficinas, onde é possível identificar a necessidade de um espaço e construir. Através dele, já foram construídas, inclusive, praças em São Paulo”, detalha a consultora.

Comunidade

O desafio, segundo Beatriz, é levar esse formato para dentro de uma comunidade ribeirinha como a Jupubinha. “Entrei em contato com o Clube de Pesquisa aqui da cidade e propus levar atividades de pesquisas para essas crianças e adolescentes durante três semanas fazendo atividades imersivas com eles. Vamos passar a primeira semana preparando as crianças para identificar as necessidades”, completa.

A localidade é composta por 152 famílias aproximadamente e cerca de 380 crianças e jovens. “Não vamos conseguir trazer todos para as atividades por isso, aos finais de semana, vamos abrir o espaço para atividades com a comunidade inteira com a participação de outras iniciativas que atuam no Pará promovendo atividades para todos”, diz a consultora.

Ela faz questão de ressaltar a importância do processo de patente. “Muitas pessoas me perguntam por que patentear? Pensei nisso quando o trabalho dela e da Danielle, sua orientadora, começou a ganhar exposição na mídia. Percebi que elas estavam em uma posição de vulnerabilidade caso alguém quisesse roubar a ideia delas, por isso fui estudar sobre patente e vi o quanto é importante proteger e garantir que elas tenham direitos sobre a pesquisa. Além disso, para garantir que esse estudo tenha impacto é necessário ter a propriedade sobre esse material. Isso é uma exigência de mercado”, justifica.

A consultora também montou um grupo de estudo sobre a pesquisa de Franciely, dentro da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo de São Paulo, formado por quatro bolsistas. Dois professores, Claudia Oliveira e José Baravelli. “A ideia é poder agregar mais conhecimento à pesquisa”, explica Beatriz.

Grandes desafios

Conseguir fundos para dar prosseguimento ao processo de patente não é o primeiro desafio enfrentado por Franciely. “Recebi prêmios na Febrace, mas não consegui outros apoios para continuar a pesquisa. Lá, eu conheci a Bia (a consultora Beatriz Cintra), que me ofereceu ajuda. Criamos um grupo e ficamos trocando mensagens, ela me ajudou a traduzir o meu material da pesquisa para o inglês. Em setembro de 2018, o projeto ia parar porque não havia dinheiro para continuar e eu e a professora Danielle estávamos endividadas e sem incentivo. Tinha uma viagem para ir para os Estados Unidos, que incluía passagem, hospedagem e alimentação para conhecer os melhores colégios e universidades, mas precisava tirar o visto e não tinha como fazer isso, não sabia nem como começar”.

Viagens

Foi aí que uma vaquinha on-line iniciada por Bia e um grupo de estudantes de São Paulo mudou o rumo da história. “Conseguimos R$ 15 mil para cobrir as dívidas e pagar as viagens que tinha sido convidada e para fazer a entrevista para o visto. Uma matéria a nível nacional ajudou bastante, assim como outra feita pelo Diário Online, anteriormente”.

As viagens pelo país e pelos Estados Unidos tiveram um reflexo importante na vida e nos estudos de Franciely. “Já viajei o Brasil todo. Tive um amadurecimento muito grande”, afirma. “Hoje tenho um conhecimento de mundo que nunca pensei ter”.

Apesar das premiações, inclusive três internacionais, e a luta para manter sua pesquisa, Franciely mantém a mesma rotina de antes. Mora com os avós, Raimunda e Waldemar Rodrigues e outros familiares em uma casa de madeira de quatro cômodos no bairro Paraíso, na periferia de Moju. Todos os dias, ela faz o percurso de cerca de 5k com a bicicleta, que conseguiu comprar recentemente, até a escola, onde estuda. “Antes andava tudo isso”.

Apoio essencial da professora

Ao longo dessa caminhada em busca de solidificar sua pesquisa, Franciely tem contado com o apoio essencial de sua orientadora e professora de Química, Danielle Pereira. Ela foi uma das primeiras pessoas que viu o potencial da menina. “Conheci a Franciely ainda criança quando ela participou pela primeira vez da Feira Científica da cidade, ainda no ensino fundamental menor. Ela sempre foi extrovertida e inteligente e, por isso, foi incluída em um projeto de iniciação científica”, relembra a professora, responsável pelo Clube de Ciências do Município de Moju (CCIMM), do Grupo de Apoio ao Desenvolvimento Científico, ligado ao Instituto de Educação Científica e Matemática (IEMCI), da Universidade Federal do Pará.

Estudos

Sobre a pesquisa na qual ela é orientadora da estudante, Danielle diz: “No início queríamos apenas substituir o lixo nos aterros das casas com materiais mais seguros e sustentáveis, foi quando chegamos ao tijolo feito com carvão a partir do caroço de açaí e da argila. Atualmente estamos desenvolvendo estudos para que esses materiais possam ser usados em outras coisas da construção civil como argamassa, tijolos, telhados e pré-moldados, entre outros”.

A professora afirma ainda a importância do Clube de Ciências para o desenvolvimento da pesquisa de Franciely e de outros estudantes da cidade. “Ele está aberto para atender as cerca de 200 escolas da zona rural do município de Moju e mais de 20 na sede da cidade. Desenvolve pesquisas junto às escolas, iniciação científica e para melhorar as aulas de ciências e matemática. Nossa intenção é conseguir mais apoio para construir o nosso Clube de Pesquisa, que atualmente tem um espaço dentro da Escola Ernestina Pereira Maia, para que possam surgir, quem sabe, outras Francielys”, diz.

“Tudo isso que vivi fora está me preparando para trabalhar aqui.”

Na escola onde Franciely estuda, todos a conhecem e a chamam pelo apelido de “cientista”. A professora e vice-diretora, Selma Amaral, conta que cerca de 1.300 alunos estudam na escola nos três turnos. Para ela, parte do sucesso da pesquisa da estudante também se deve ao incentivo da instituição. “Temos uma Feira de Ciências, onde os melhores trabalhos são apresentados durante a Feira Municipal da Cidade que ocorre no centro cultural. Aqui acredito que ela tenha encontrado o incentivo que precisava”, orgulha-se. “Desde criança sempre foi muito curiosa e já se diferenciava das outras crianças”, completa, sobre a estudante.

Além de Franciely, a escola já teve outros alunos de destaque. “Ela foi a primeira, mas abriu a porta para que outros também tivessem oportunidade de aparecer”, diz. Na sala de aula da escola, que deve passar por uma reforma em breve, todos são iguais, inclusive nos sonhos. “Tenho muita coisa para fazer ainda no meu município. Tudo isso que vivi fora está me preparando para trabalhar aqui. Sempre falo que quero conquistar o mundo, conquistar meu espaço, estudar, ter um grau de conhecimento muito bom e trazer para cá todo esse conhecimento que necessitamos tanto”,
resume Franciely.

Amor pelos livros

Na casa de Franciely, livros e cadernos na sala mostram o valor que o estudo tem naquele lar. “Ganhei muitos livros”, diz ela folheando um exemplar antigo de Capitães da Areia, de Jorge Amado, romance que retrata o cotidiano de um grupo de meninos moradores de rua. A rotina vez por outra é interrompida por alguns compromissos. O mais recente esta semana, o Nav Experience, em São Paulo, onde foi participar como palestrante.