400 Anos de Belém

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Uma história forjada em ferro
Um dos símbolos da ‘belle époque paraense’, a arquitetura de ferro faz parte do cotidiano da cidade e preserva a memória da época de ouro de Belém.

Existem legados que são verdadeiras histórias vivas, como páginas abertas de um grande livro prontas para serem consultadas. Através delas, é possível conhecer tradições, aprender sobre costumes ou descobrir acontecimentos impressionantes. Isso acontece, por exemplo, com grandes monumentos como as pirâmides do Egito, em verdadeiros tratados históricos como a Odisseia de Homero ou ainda na história oral guardada como tesouro por alguns povos.

Chalé de Ferro - UFPA
Chalé de Ferro – UFPA

Belém também tem o seu legado, ou melhor dizendo, um dos legados nos prédios e ornamentos de ferro que invadiram a cidade no início do século XIX. Espalhada por toda a cidade, a arquitetura de ferro foi uma das heranças deixadas a Belém em seu apogeu econômico, a ‘Belle Époque Amazônica’. Essas construções ajudam a contar essa história de riqueza e glamour vivida pela cidade, uma das primeiras de todo o país a ter iluminação elétrica pública, abastecimento de água encanada, um grande teatro, cinema e diversos outros serviços, que credenciavam Belém a ser conhecida na época como Paris na América.

Essa herança arquitetônica é um dos principais símbolos dessa época de ouro, quando Belém era a maior exportadora do mundo de látex, utilizado na indústria para a produção da borracha. Em um período onde o produto era um dos mais cobiçados em meio ao desenvolvimento das indústrias e a promoção de guerras, o capital entrava em Belém com a mesma velocidade com que o látex saía para o resto do mundo.

Caixa dágua de São Brás
Caixa dágua de São Brás

Era um processo rápido, intenso. Belém nunca havia vivido e nem voltaria a viver um período como aquele, então era preciso reformular a cidade para que ela correspondesse àquele momento. E entre a necessidade de se construir monumentos imponentes e importantes e a baixíssima qualificação da mão de obra local para isso, encontrou-se uma solução que seria perfeita: o ferro.

Chalé de Ferro - Bosque Rodrigues Alves
Chalé de Ferro – Bosque Rodrigues Alves

Nesse momento, o material alcançava um novo patamar na construção mundial. Devido a sua praticidade, pois era possível montar e desmontar de forma rápida e ainda era extremamente resistente, começou a ser utilizado, sobretudo, em áreas remotas e de difícil acesso, como a África, para construção de hospitais de campanha e atividades de mineração. Mas, ganhou uma enorme projeção que culminou na exposição do ferro de Paris, quando arquitetos e engenheiros do mundo todo foram convidados a montar estruturas feitas de ferro, que teve entre as suas principais peças a Torre Eiffel, que desde então nunca mais foi desmontada.

Popularizado em todo o planeta, o ferro também invadiu a capital mundial da borracha. Portões, escadas, objetos de decoração e até mesmo casas e prédios eram encomendados em escala de produção. A demanda era tanta que muitas casas de exportação na Europa aceitavam a borracha como moeda, que era trocada com equipamentos de ferro. “Era muito mais barato você encomendar um perfil de ferro da Europa do que investir em construção de alvenaria. Ele chegava todo dividido, numerado e separado, só para montagem. Então, você aliava um material mais barato, de uma qualidade igual ou superior e que não exigia uma mão de obra especializada para construção. Além disso, ainda era construído em um tempo muito menor, mesmo considerando o tempo de viagem até Belém”, explica Jussara Derenji, arquiteta e presidente do Museu da Universidade Federal do Pará (UFPA).

No entanto, mesmo com essa popularização, o ferro ainda enfrentou alguma desconfiança em sua utilização. Tanto é que as primeiras construções imitavam a arquitetura clássica, antes de encontrar um caminho e estilo próprios. Um exemplo disso são os púlpitos da Igreja da Sé, que são feitos em ferro, mas produzidos para parecer com madeira.

Mas, com o tempo o ferro se tornou símbolo de rapidez e modernidade daquele período, exatamente a marca que o intendente Antônio Lemos, à frente da cidade naquela época, queria imprimir a Belém. Talvez o maior representante desse legado arquitetônico, em termos de preservação e conhecimento, seja o mercado de peixe do complexo do Ver-o-Peso, mas todo o pátio interno do mercado de carne Francisco Bolonha, reformado depois de um incêndio, além de diversos equipamentos públicos, como chafarizes, fontes, bancos de praças e mictórios públicos, também nos ajudam a dar uma ideia do intenso movimento que a arquitetura de ferro causou em Belém e a importância que ela tem para a cidade.

Todo esse legado está tão presente que, às vezes, andando pela cidade nós passamos por ele e nem nos damos conta. Ele está presente em diversos portões, coretos de praças, até mesmo em uma escada na loja Paris n’América e no Theatro da Paz. O sucesso das construções em ferro foi tão grande, que barões da borracha importaram casas inteiras. Hoje, Belém possui três chalés de ferro dessa época, que foram doados para instituições. Um está montado na UFPA, outro no Jardim Botânico Bosque Rodrigues Alves e, o último, está desmontado e pertence à Imprensa Oficial do Pará.5

“Belém é a cidade que tem a arquitetura de ferro mais bem preservada do Brasil, muito graças a resistência do material, que ficou mais de 100 anos sem manutenção e dura até hoje. Mas, no início dos anos 1990, a cidade começou a se dar conta de que tinha um patrimônio importantíssimo e começou a sentir orgulho disso. Em 1992, a Universidade sediou um seminário internacional sobre arquitetura de ferro, que trouxe os maiores especialistas sobre o assunto em todo o mundo. Foi quando começou todo um processo de reforma e revitalização desse patrimônio, como a pintura dos coretos,reforma do mercado do Ver-o-Peso, do galpão do antigo gasômetro de Belém, que foi levado para o Parque da Residência e recebeu novo uso, assim como a requalificação dos galpões da Companhia Docas do Pará, como centro turístico, assim como o Hangar”, ressalta Jussara Derenji.

O prefeito de Belém, Zenaldo Coutinho, afirma que as construções de ferro têm uma importância extraordinária para a história da cidade, “primeiro porque representam lembranças vivas do período áureo da borracha e do momento de desenvolvimento fausto que tivemos, segundo porque esses armazéns e mercados são de grande utilização no presente”, explica.6

Ele adianta que a arquitetura de ferro receberá uma atenção especial dentro das programações e comemorações pelos 400 anos de Belém. A Praça da República, por exemplo, tem uma série de artefatos em ferro que serão restaurados, assim como o Chalé Tavares Cardoso, em Icoaraci, que está em obras, e ainda há a expectativa para uma reforma no Solar da Beira. “O município tem se habilitado a buscar parcerias institucionais, não apenas para as construções de ferro, mas para todo o patrimônio histórico que a nossa cidade tem. Então, nos habilitamos junto ao Ministério da Cultura, no Iphan, para participar do PAC das cidades históricas. Fizemos nossos projetos e estamos na expectativa para a liberação desses recursos”, garante.

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